Catacumbas com piscina de ossos

Lima – Senta que lá vem história

De acordo com os pioneiros da colonização americana, a área hoje ocupada por Lima era chamada Itchyma por seus habitantes originais. Entretanto, antes mesmo da ocupação Inca na região no século XV, um famoso oráculo no vale do rio Rímac era conhecido por seus visitantes como Limaq, que significa “falante” ou “orador” em uma variação local da língua quéchua. Esse oráculo eventualmente foi destruído pelos espanhóis e substituído por uma igreja, mas o nome persistiu e crônicas da época apontam que Límac passou a ser usado como nome para a área. Evidências linguísticas sustentam a teoria de que a língua espanhola consistentemente rejeita consoantes no final das palavras, o que estudiosos acreditam que possa ter levado à origem do nome Lima. A cidade foi fundada em 1535 com o nome de Ciudad de los Reyes,mas nome para lá de pedante caiu rapidamente em desuso.

Caminhada pela pirâmide
Caminhada pela pirâmide da Huaca Pucllana

Talvez a evidência mais antiga da ocupação da área sejam as ruínas da Huaca Pucllana, um sítio arqueológico com origens nos primeiros séculos da era cristã que pode ser visitado no distrito de Miraflores. Na era pré-colombiana, a região era habitada por grupos indígenas da diplomacia Ychsma, que foi incorporada aos Incas no século XV. Em 1532, conquistadores liderados por Francisco Pizarro derrotaram os incas e tomaram seu império, fundando ali a cidade três anos depois.

Em 1543, Lima ganhou prestígio após ser designada a capital do Virreinato del Perú e base da Real Audiencia (a justiça da época). Isso faz sentido por estar próximo à costa, um ponto estratégico na rede de comércio com o restante das Américas, a Europa e o Extremo Oriente. Em contrapartida, a cidade ficava à mercê dos piratas vindos do Oceano Pacífico, o que levou à construção das muralhas de Lima entre 1684 e 1687. Nesse último ano, um forte terremoto destruiu a maioria das construções da cidade, coincidindo com uma época de recessão na região e o crescimento econômico de outras cidades, como Buenos Aires.

Mapa de Lima em 1750
Mapa de Lima em 1750

Como se sabe, os terremotos são comuns nessa área e marcaram a história do país. Em 1746, outro desses abalados destruiu novamente a cidade, que também perdeu o monopólio do comércio marítimo e o controle das minas na região norte do Peru, o que reforçou o declínio econômico.

Em 1820, tropas argentinas e chilenas lideradas pelo General José de San Martín aportaram na cidade e formaram um cerco. O então vice-rei José de la Serna e Hinojosa evacuou Lima no ano seguinte afim de salvar o exército real. Temendo uma mobilização popular e sem condições de manter a ordem, o conselho da cidade recebeu San Martín e assinou a declaração de independência, tornando Lima a capital da República do Peru.

A retomada econômica, entretanto, só veio muitos anos depois com a exportação de guano, um adubo natural. Esse desenvolvimento aumentou a desigualdade social, levando ao crescimento da criminalidade. Além disso, o país foi invadido pelo Chile na Guerra do Pacífico, entre os anos 1879 e 1883. A renovação urbanística, com a abertura de largas avenidas, construção de estradas ligando as cidades próximas e mudanças no plano da cidade da década de 1890 até 1920. Outro terremoto levou ao desmoronamento de grande parte da cidade em 1940, na época formada por construções que usavam barro e vegetação como materiais.

Mario Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa

Mas a intensa imigração dos povos da região rural dos Andes para a cidade em busca de oportunidade de trabalho e educação trouxeram um crescimento rápido para a região. O século XX também foi marcado pela chegada de milhares de estrangeiros, principalmente alemães, franceses, italianos e britânicos. Questões sociais e políticas foram bem retratadas no livro A cidade e os cachorros, do escritor peruano Mario Vargas Llosa.

Atualmente, Lima é um importante centro industrial e financeiro da América Latina, tendo sua economia baseada na produção de tecidos, roupas e alimentos. Também concentra o maior número de instituições de ensino superior do continente. O porto de Callao, na região metropolitana, é o principal ponto de pesca e comércio da América do Sul, exportando petróleo, aço, prata, zinco, algodão, açúcar e café, entre outros. Em Callao também se encontra o Aeropuerto Internacional Jorge Chávez.

Obviamente que, apesar de todo o desenvolvimento, Lima não deixa de ser uma capital do terceiro mundo, apresentando grande desigualdade social, acesso a saneamento básico, segurança, poluição e outros problemas.

Catedral, paróquia e Palacio Arzobispal
Catedral, paróquia e Palacio Arzobispal

Em termos de turismo, destaca-se o centro histórico, que possui vários exemplos da arquitetura colonial como o Monastério de San Francisco, a Plaza Mayor, a Catedral, o Convento de Santo Domingo e outros. Em minha visita a essa área, visitei as catacumbas subterrâneas do monastério, que conservam uma quantidade impressionante de ossos de pessoas não identificadas. O interessante é que eles nem tem uma separação por corpos. São verdadeiros piscinões separados por parte do corpo: aqui está o tanque de fêmures, ali um amontoado de crânios e por aí vai. Mórbido, porém muito curioso. O centro histórico, onde também é possível visitar alguns trechos restantes da muralha que cercava a cidade, foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1988.

Parque Central de Miraflores
Parque Central de Miraflores

A maioria dos turistas, entretanto, opta por se hospedar em Miraflores, um distrito mais novo, moderno e bem cuidado. Ali estão concentrados vários hotéis, opções de entretenimento e restaurantes, como o Larcomar. Aliás, é importante destacar que Lima é conhecida como a capital gastronômica das américas. Dos restaurantes mais conceituados, tive a oportunidade de comer no Astrid & Gastón, mas também estão muito bem classificados mundialmente o Central e o Maido. Para se ter uma ideia, a capital tem mais restaurantes com estrela Michelin que o Brasil.

Iglesia La Ermita
Iglesia La Ermita

Outra opção é ficar em Barranco, originalmente um balneário para a alta sociedade. Ali há ótimas opções culturais como o Museo de Arte Contemporáneo, o Museo Pedro de Osma e outros. Além disso, o distrito possui seu próprio centro histórico, do qual destaco a Iglesia La Ermita, ótimos restaurantes e festas badaladas para o público mais jovem (ou não).

Enfim, Lima pode não ser o destino turístico mais conhecido pelos viajantes brasileiros, mas vale muito à pena passar uns dias na capital para conhecer melhor a sua história e diversos atrativos, mesmo porque a maioria dos voos que chega ao país passa por lá.

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