Detalhe da capa do livro "A cidade e os cachorros"

A cidade e os cachorros ★★★★☆

Título original: La ciudad y los perros
Ano: 1963
Autor: Mario Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa, nascido no Peru, é um dos grandes escritores latino-americanos da atualidade. Durante parte da sua infância, foi levado a acreditar que seu pai havia morrido, já que a família não queria admitir o divórcio. Anos depois se mudou para Lima e conheceu seu pai, com quem sua mãe voltou a ter um relacionamento. Aos 14 anos, ingressou a mando de seu pai no prestigioso Colegio Militar Leoncio Prado. Essas experiências pessoais serviram como base para seu primeiro romance, A cidade e os cachorros.

A cidade e os cachorros

Esqueceu a casa da avenida Salaverry, em Magdalena Nueva, onde viveu até a noite em que chegou a Lima pela primeira vez, e a viagem de 18 horas no carro, a sucessão de lugarejos em ruínas, areais, vales minúsculos, às vezes o mar, campos de algodão, povoados e areais. Ia com o rosto colado à janela e sentia o corpo roído pela excitação: “Vou ver Lima.” De vez em quando, a mãe o puxava para ela, murmurando: “Richi, Ricardito.” Ele pensava: “Por que está chorando?” Os outros passageiros dormitavam ou liam e o motorista cantarolava o mesmo estribilho, hora após hora. Ricardo resistiu por toda a manhã, a tarde e o começo da noite, sem desviar os olhos do horizonte, esperando que as luzes da cidade surgissem de surpresa, como uma procissão de tochas. O cansaço aos poucos lhe adormecia os membros, embotava os sentidos; no escuro, ele se repetia entre dentes: “Não vou dormir.” E, de repente, alguém o sacudia com doçura. “Já chegamos, Richi, acorde.” Estava no colo da mãe, a cabeça apoiada em seu ombro, sentia frio. Lábios familiares roçaram sua boca e ele teve a impressão de que, durante o sono, convertera-se num gatinho. Agora o carro avançava devagar, via vagas casas, luzes, árvores e uma avenida mais comprida que a rua principal de Chiclayo. Tardou alguns segundos a perceber que os outros passageiros haviam descido. O motorista cantarolava já sem entusiasmo. “Como será”, pensou. E sentiu, de novo, uma ansiedade feroz, como três dias antes, quando a mãe, chamando-o de lado para que a tia Adelina não os ouvisse, disse: “Teu pai não estava morto, era mentira. Acaba de voltar de uma viagem muito longa e está nos esperando em Lima.”

Apesar do caráter autobiográfico, grande parte dos fatos narrados são criação do escritor. Em suas memórias, Vargas Llosa afirma que “a maior parte dos personagens de minha novela A cidade e os cachorros, escrita a partir de recordações de meus anos leonciopradinos, são versões muito livres e deformadas de modelos reais e outros totalmente inventados.” Alberto, cujo apelido é poeta, é o personagem com inspiração mais óbvia na sua vida, mas também existem facetas de Vargas Llosa em outros personagens como o Escravo e sua tormentosa relação com um pai violento.

A cidade e os cachorros

O ambiente interno da escola militar, onde o autor estudou por dois anos, reflete na obra a sociedade peruana como um todo, já que eram admitidos alunos das mais diversas classes sociais e origens, tanto geográficas, quanto étnicas (brancos, pretos e indígenas). Apesar da história ter sua espinha dorsal na vida acadêmica dos personagens, também acompanhamos flashbacks de outros alunos, o que nos leva a entender as suas vidas e o que os levou a entrar no colégio. As variadas linhas narrativas, contadas pela perspectiva de personagens diversos, hora tratados por seus nomes e hora pelos apelidos, se misturam como peças de um quebra cabeça. Isso pode ser um pouco confuso no início da leitura, mas se esclarece a partir do momento em que você conhece melhor os personagens.

Trecho do livro "A cidade e os cachorros"
Trecho do livro “A cidade e os cachorros”

Os alunos entram no colégio interno só para garotos aos 13/14 anos, passando a viver experiências como o desenvolvimento da sexualidade, brigas, abuso de bebida alcoólica e cigarros, problemas financeiros, preconceito e um círculo vicioso de dominação e crueldade. O título faz referência aos cachorros, como eram tratados os calouros da escola, frequentemente humilhados física e emocionalmente pelos veteranos. Também há críticas pesadas ao modo truculento como o exército lida com aquelas pessoas, à dissimulação de problemas sérios em prol da manutenção da imagem da instituição, denúncias e corrupção, passando por problemas sociais, econômicos e políticos do país. Esses temas são caros ao autor, que se envolveu diretamente com a política e chegou a se candidatar à presidência.

Enfim, trata-se de uma obra muito bem escrita, com riqueza narrativa e tema ainda muito atual. Mal posso esperar para ler outras obras de Mario Vargas Llosa.

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