Trem panorâmico do Bernina Express

Bernina Express – Viagem no trem panorâmico de Chur a Tirano

Correndo por 122 km de trilhos, passando por 55 túneis e sobre 196 pontes e viadutos, o trajeto do Bernina Express é uma obra prima da engenharia. A combinação dessa criação humana com as paisagens percorridas durante a viagem é tão impressionante que foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

O que mais me impressionou foi a mudança gradual na paisagem, que vai do alto dos congelados Alpes Suíços, com suas montanhas de formas dramáticas, para o calor e o charme das colinas verdes mais ao sul.

Observe o número do vagão antes de embarcar
Observe o número do vagão antes de embarcar

Ao contrário das outras viagens de trem pela Suíça, para os tours panorâmicos é preciso fazer reserva de assento – as vendas começam três meses antes do dia de viagem. Seja para comprar o ingresso, seja para uso do Swiss Travel Pass, é preciso reservar o lugar e pagar uma taxa. Recomendo que você acesse essa postagem para mais detalhes sobre como proceder. De posse do seu bilhete, basta se dirigir com alguma antecedência para a estação de partida e procurar pelo seu lugar. O número aparece em letreiros nas laterais do trem. Observe que, na foto acima, aparece o número do vagão 3.

As malas são colocadas no próprio vagão
As malas são colocadas no próprio vagão

Se você vai viajar com malas, recomendo que você chegue com bastante antecedência porque o espaço para bagagens é limitado. Pude perceber algumas pessoas com dificuldade para conseguir um lugar onde deixar as bagagens grandes – as menores podem ser acomodadas embaixo dos assentos.

A diferença desse trem para os convencionais é que ele possui janelas amplas, o que possibilita uma ótima visibilidade. Além disso, ele anda numa velocidade mais lenta justamente para permitir que os passageiros observem a paisagem. A viagem completa, de Chur, na Suíça, até Tirano, na Itália, dura cerca de quatro horas. A título de comparação, o mesmo trajeto poderia ser feito de carro em menos de três horas.

Disposição dos assentos na segunda classe
Disposição dos assentos na segunda classe

Eu viajei na segunda classe, pois comprei o Swiss Travel Pass para essa categoria. Sinceramente, não senti a menor necessidade de viajar de primeira classe pelo país. Pelo que pude observar do interior dos trens por onde passei, a diferença da qualidade não justifica o preço elevado da primeira classe. Enfim, o que quero dizer dos assentos é que no meu bilhete estava escrito 44-47, então parecia que eram apenas duas poltronas. Mas na hora eu entendi que o traço queria dizer do 44 ao 47, ou seja, 44, 45, 46 e 47. Repare que são duas poltronas voltadas para frente e duas para trás, formando um grupo de quatro. Isso quer dizer que duas pessoas vão viajar de costas para o avanço do trem. Eu estava meio bolado com isso, mas, durante a viagem, descobri que isso não é um problema, não prejudica em nada a visão. De qualquer maneira, como meu grupo era justamente de quatro pessoas, tínhamos a liberdade de revezar.

Cardápio do serviço de bordo
Cardápio do serviço de bordo

Eles também passam em alguns momentos da viagem com um carrinho com lanches e lembrancinhas. Basicamente são vendidos cafés, bebidas geladas, vinhos e outras bebidas alcoólicas, alguns lanches e bonequinhos. Na compra do ingresso, é possível encomendar uma coisa mais completa, como tábua de frios e queijos, champanhe e outros mimos. Acho interessante se a ideia for surpreender o companheiro de viagem com um clima mais romântico ou comemorativo. Inclusive eles são chamados de pacote surpresa e podem ser conferidos na página oficial. Fora isso, o melhor é levar seu próprio lanche e evitar os preços altos cobrados durante a viagem. Não vou colocar os preços aqui porque eles podem estar já desatualizados.

No mapa interativo acima, é possível observar todos os pontos por onde o trem passa ou para. Durante a viagem, são feitos anúncios em alguns locais específicos, inclusive indicando que você verá algo importante à direita ou esquerda, para preparar as câmeras e tal. As informações também podem ser conferidas em um guia distribuído no interior do veículo. Abaixo, vou reproduzir as informações contidas nesse livreto, respeitando a numeração adotada por eles, e adicionar as minhas observações, quando necessário.

  1. Chur

Essa cidade é o ponto de partida para quem quer fazer o passeio completo do Bernina Express. Como o trem parte de manhã cedo, eu me programei para chegar um dia antes e aproveitei para andar pelo centro histórico da cidade. Caçadores dos primórdios da idade da pedra já passavam por essa região há 11.000 a.C, segundo achados arqueológicos, mas são as construções medievais que se destacam. Quem pensa que se trata de uma cidade sem atrativos está enganado. Ali há ótimos restaurantes e museus, como o Bündner Kunstmuseum – Museu de Belas Artes da região. Passei a noite no ibis Hotel e, no dia seguinte, fui de ônibus até a estação e embarquei no Bernina Express.

Centro histórico de Chur
Centro histórico de Chur
  1. Reichnau

Esse local marca o encontro de duas linhas férreas que se encontram em sentidos opostos. Uma delas, construída em 1903, segue para a cidade de Ilanz. A outra, de 1896, vai para Thusis.

  1. Domleschg

Provavelmente não há outro lugar na Europa em que você irá encontrar tantos castelos em uma área tão pequena quanto Domleschg. Sólidas fortalezas como a Schloss Ortenstein, no topo de uma montanha, coexistem com outros tesouros culturais escondidos. Um deles é a Kirchlein St. Georg, uma capela da Idade Média que se destaca pela pintura do forro do teto.

Essa primeira parte da viagem foi marcada por campos verdes, já que estávamos na primavera. Quando saímos, o tempo estava nublado, o que me deu um certo medo de não conseguir ver nada direito durante o passeio. No fim das contas, eu até gostei desse visual meio misterioso, com nuvens baixas se enroscando nos morros.

A bucólica paisagem do campo
A bucólica paisagem do campo
  1. Thusis

Aqui é onde a Linha Albula realmente começa. Logo além da vila ficam as muralhas de pedra onde se encontra o famoso Viamala Gorge, seguida do grande castelo de Hohen Rätien. Viamala é um desfiladeiro que irritava os viajantes em seus passeios pelos Alpes, pois representava um obstáculo selvagem e perigoso na jornada pela região. Atualmente, são justamente esses motivos que o fazem ser tão procurados. Obviamente que não é possível ver nada disso de dentro do trem, infelizmente.

  1. Solisviadukt

Um dos pontos altos do passeio. Literalmente. O trem passa por esse viaduto com cerca de 90 metros de altura sobre o rio Albula. Essa é a mais alta e longa ponte da linha.

  1. Tiefencastel

Esse local é marcado por ter sido base de uma cidade romana construída no topo do monte Kirchhügel. De Tiefencastel saem as trilhas históricas que levam em direção a Julier, Septimer e Albula, muito procuradas por caminhantes.

  1. Landwasserviadukt

Essa é uma ótima ponte para ser fotografada pelos viajantes porque possui uma curva nos trilhos suspensos que adentram a rocha, com um visual de cair o cu da bunda e um trajeto realmente emocionante. É uma das partes em que há um anúncio para os turistas ficarem atentos, pois passa bem rápido. A entrada aparece melhor para quem está do lado direito do trem e o ideal para evitar o reflexo é encostar a lente da câmera no vidro da janela.

Landwasserviadukt
Landwasserviadukt
  1. Filisur

O tráfego frequente de pessoas pelo Passo de Albula fez com que surgisse esse vilarejo chamado Filisur, marcado por suas ricamente decoradas casas de pedra. Esse passeio do Bernina Express é interessante porque você vai passando por essas vilas e pensando: que sonho morar nesse lugar!

Nessa parte do tour ainda havia alguns pontos com nuvens bem baixas, mas nada que prejudicasse o passeio. Como o trajeto percorrido é longo, foi interessante porque passamos por diversos climas diferentes.

Filisur vista do trem
Filisur vista do trem
  1. Davos

Originalmente uma vila rural, essa cidade agora é a metrópole dos Alpes. A rápida transformação teve início ainda no século XIX, quando foram descobertos os benefícios para a saúde de se morar em locais altos e com ar puro. Os visitantes, entretanto, não eram apenas pacientes à procura de cura para seus males, mas também incluía autores como Thomas Mann, cuja novela A montanha mágica se passa em Davos. Depois apareceram os turistas de todos os lugares do mundo.

  1. Wiesnerviadukt

Com 204 metros de comprimento, esse viaduto é a maior ponte da linha que liga Davos a Engadin. A sessão que vai de Davos para Filisur foi aberta em 1909.

  1. Estação Stugl/Stuls

Parada no tempo, a estação de Stugl im Wald continua com sua aparência original por mais de 100 anos.

  1. Bergün

A estação em Bergün, assim como a de Filisur, foi construída no verdadeiro estilo de Engadin. A sala do spa, com seus toques de art noveau, foi construída em 1906, na mesma época em que a linha de trem trazia a área para a era moderna.

Essa parte do passeio é marcada pelas montanhas rochosas dos Alpes, com neve mesmo durante a primavera. Ali parecia que ainda não tinha chegado a primavera, pois os gramados e folhagens de muitas das árvores estavam secos.

Montanhas nevadas dos Alpes Suíços
Montanhas nevadas dos Alpes Suíços
  1. Linha Bergün-Preda

A linha de Bergün para Preda precisa lidar com uma diferença de altitude de 416 metros pelo caminho. Para transpor essa inclinação, foram criados uma série de túneis, viadutos e pontes. É impressionante como a estrutura se mistura com a paisagem à sua volta.

  1. Preda

Na virada do século XX, o único atrativo dessa vila era o Hotel Kulm. Isso foi antes de centenas de trabalhadores terem sido trazidos para o local para a abertura do mais alto túnel de uma ferrovia nos Alpes Suíços, a 1.800 metros de altitude acima do nível do mar e com extensão de 6 km. Você fica alguns minutos passando por dentro do túnel, obviamente sem ver nenhuma paisagem lá fora.

  1. Samedan

O principal ponto desse local é justamente a estação de trem. Também se destaca por ter o aeroporto em maior altitude de toda a Europa.

Essa viagem é interessante de fazer com outras pessoas. É bom ir conversando, levar alguma coisinha para comer, comprar um café do serviço de bordo. Não ficamos o tempo todo tirando fotos, mas estávamos sempre de olho na paisagem.

A vegetação ainda estava seca em Samedan
A vegetação ainda estava seca em Samedan
  1. St. Moritz

A cerca de 1.800 metros acima do nível do mar, St. Moritz é um dos mais famosos destinos turísticos do mundo. A luxuosa área é repleta de grandes hotéis, que começaram a ser construídos no início do século XX, quando os montanhistas e viajantes culturais britânicos começaram a visitar a região.

  1. Charneca Stazerwald

A água presa nessa região na era glacial criou uma maravilhosa região de charneca que caracteriza a Suíça.

A partir desse ponto entramos em uma área realmente muito nevada, estava tudo branquinho e lindo. O trem é todo fechado e climatizado, então você não sente frio nenhum – pode reparar que os casacos estão pendurados perto das janelas.

Passamos por trechos cobertos de neve
Passamos por trechos cobertos de neve
  1. Pontresina

Corre na língua pequena que os árabes chegaram a se aventurar para o norte até essa vila aos pés do imponente Piz Bernina, com altitude de 4.048 metros acima do nível do mar. Nunca ficou claro se o nome da comunidade veio de Pons Sarasina ou Ponte Sacarens. O fato é que montanhistas britânicos chegaram à região em 1850 para fazer a primeira escalada ao pico da montanha. Esse ano marcou o início da transformação da vila rural para importante destino turístico, incluindo lendários hotéis como o Hotel Saratz Pontresina.

  1. Lej Nair e Lago Bianco

As águas do norte do Passe de Bernina fluem naturalmente pelo Danúbio em direção ao Mar Negro, enquanto as águas do sul acabam no rio Po e o Adriático. A partir de 1911, iniciaram-se esforços para mudar a ordem natural de alguma forma, buscando conter as águas em lagos artificiais como o Lej Nair (Lago Negro) e Lago Bianco (Lago Branco).

Quando passamos por lá, uma boa parte dos lagos ainda estava congelada e coberta de neve, parecendo uma gigante nuvem branca. Ainda assim, foi possível ver os lagos com as belas montanhas ao fundo.

Lago Bianco
Lago Bianco
  1. Ospizio Bernina

Essa estação se encontra a 2.253 metros acima do nível do mar, fazendo com que seja a mais alta da Rhaetian Railway. O hospício da qual vem seu nome também marca a fronteira entre a parte sul, no vale de Puschlav, onde se fala italiano, e a região de Engandin, cujos habitantes de comunicam com o romansh (mais especificamente o Rhaeto-Romantic) e alemão. O prédio da estação e o bar da montanha datam de 1925, aproximadamente.

  1. Alp Grüm

A estação e restaurante, construídos a partir de 1923, estão rodeados de uma paisagem de montanhas fantástica, incluindo o Glacial e o lago Palü, com vistas panorâmicas acima do Cavaglia e além dos Alpes Italianos. O arquiteto Nicolaus Hartman, responsável pelo projeto da estação, criou estruturas no mesmo estilo em várias partes da região.

  1. Hidroelétrica de Palü e Cavaglia

Após a Primeira Guerra Mundial, a geração de energia hidroelétrica ganhou mais importância nos Alpes, com o período pós-1926 sendo marcado pela construção da usina em Palü e Cavaglia. A imponência dessa construção é pouco perceptível quando vista de fora, pois se assemelha mais à uma fortaleza medieval. Cavaglia também é conhecida pelo seu Jardim Glacial, onde é possível observar o resultado de milhares de anos de pedras arrastadas pelas águas glaciais.

A bela região de Poschiavo
A bela região de Poschiavo

Essa região mais ao sul da Suíça possui uma paisagem totalmente diferente da que estávamos vendo anteriormente. Ali a neve deu lugar a um clima mais quente e vastos campos verdes aos pés das montanhas. Nessa parte do passeio as nuvens também já haviam se dissipado.

  1. Poschiavo

A principal cidade da região possui um imponente estilo renascentista na arquitetura de suas casas. Esses palácios foram construídos por prósperos residentes locais que fizeram suas fortunas no exterior.

Um dos destaques do local é o Lago di Poschiavo. Ao contrário do Lago Bianco, esse possui uma formação natural. Deu vontade de descer do trem para dar uma caminhada por lá. O dia estava lindo e a paisagem era realmente muito convidativa.

Lago di Poschiavo
Lago di Poschiavo
  1. Viadotto elicoidale di Brusio

O grande destaque do final do passeio é quando o trem percorre esse viaduto circular de 360°. Ele foi construído assim para permitir uma brusca mudança de altitude em um pequeno espaço. Essa parte eu não fotografei porque preferi filmar o movimento do trem e as mudanças proporcionadas no ponto de vista dos viajantes.

  1. Tirano

Porta Milanese. Porta Bormina. Porta Poschiavina. Os nomes dos seus portões medievais continuam a reforçar a estratégica importância dessa cidade, já na Itália. Ali se encerra o passeio do Bernina Express. A parte de trem, pelo menos.

Embora eu tivesse interesse em conhecer a cidade, já que nunca tinha ido na Itália, preferi seguir meu caminho no mesmo dia, pois o foco dessa viagem era mesmo a Suíça. É possível comprar a passagem ou reservar assento do Bernina Express já com estadia na cidade, mas você também pode fazer a reserva da hospedagem por conta própria e ter mais opções.

Estação de trens de Tirano
Estação de trens de Tirano

Com isso, eu e meus companheiros tivemos pouco mais de uma hora para almoçar. Escolhemos um restaurante perto da estação chamado Sale & Pepe, mesmo porque estávamos carregando nossas malas. Depois de passar tantos dias na Suíça, onde tudo é muito caro, achamos o preço lá bem em conta. Além disso, a culinária italiana é uma delícia.

Depois foi só voltar para a estação e seguir as placas para o ônibus panorâmico do Bernina Express, que viaja por mais umas três horas no trajeto entre Tirano, na Itália, até Lugano, na Suíça. Como se pode imaginar, o caminho é também cheio de lugares lindos para apreciar. Mas isso é assunto para outra postagem.

Fiz uma compilação de alguns dos vídeos que fiz durante a viagem de trem, na ordem que foram vistas durante o passeio, o que permite ter uma visão geral de como foi a experiência de viajar no Bernina Express. O que posso dizer é que foi um passeio maravilhoso. Apesar de parecer longo, fomos entretidos pelas constantes atrações durante o caminho, como pontes suspensas, túneis, vistas dos alpes suíços, passagens por trechos totalmente nevados e outros com belos campos verdes e céu aberto, lagos congelados e outros convidativos para uma gostosa caminhada, enfim. Um passeio cheio de beleza e uma experiência única usufruída de dentro do conforto do trem. Tudo isso com o bilhete já incluso no Swiss Travel Pass, só precisando pagar uma taxa pela reserva dos assentos. Imperdível!

Anúncios

2 comentários

  1. Por favor, pode me tirar uma dúvida? Pretendo ir a Zurique no final de dezembro 2018 e janeiro 209. Gostaria de saber se nessa época há o trem panorâmico de Chur até Davos. Apesar de olhar no sitio, não entendi se no inverno o trem para em Davos. Obrigada.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Kathia. A única linha do Bernina Express que funciona durante o inverno é a primeira (Chur – Tirano) e ela não passa em Davos.

      Linha 1: Chur – Tirano – Chur (o ano todo, diariamente)
      Linha 2: Davos Platz – Tirano – Davos Platz (verão)
      Linha 3: St. Moritz – Tirano – St. Moritz (verão)
      Linha 4: Tirano – St. Moritz – Tirano (verão)

      Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s