Fachada da Casa de Nhozinho

São Luís – Senta que lá vem história

Originalmente, a região onde hoje se encontra a cidade de São Luís era habitada por índios, principalmente da tribo dos tupinambás, que viveram ali entre os anos 200 e 600, em ocas erguidas com madeira e palha. Possuíam pequenas plantações de mandioca e batata-doce, mas também caçavam, pescavam e coletavam frutas da natureza quase intocada. A aldeia tinha o nome de Upaon-Açu, como ainda é denominada a ilha.

Com a chegada dos portugueses, as terras brasileiras foram divididas em capitanias hereditárias, sendo que foi dada ao tesoureiro João de Barros a oportunidade de colonização dessa região. A resistência dos índios e a dificuldade de acesso à ilha, entretanto, frustraram seus objetivos e levaram ao abandono da cidade de Nazaré, fundada ali na década de 1550.

A próxima cidade que apareceu na região foi a França Equinocial, a única fundada por franceses em terras brasileiras. Em 1612, chegou à região Daniel de La Touche, conhecido como Senhor de La Ravardière, acompanhado de cerca de 500 homens. O objetivo era instalar uma colônia francesa nos trópicos. A data da fundação, 8 de setembro, foi marcada por uma missa realizada pelos capuchinhos, uma ordem religiosa da família franciscana, e a construção de um forte com nome de Saint-Louis (São Luís), em homenagem a Luís IX, patrono da França, e ao então rei Luís XIII.

Palácio dos Leões
Palácio dos Leões

Nessa época, aconteceu o primeiro crime de homofobia registrado do país. Na visão dos missionários e cronistas portugueses e franceses da época, os índios, que andavam nus, eram polígamos, incestuosos e sodomitas. Ou seja, a verdadeira representação do diabo na Terra. Poucos meses após a chegada colonos e missionários franceses ao Maranhão, promoveu-se a execução de um índio homossexual, amarrado à boca de um canhão e explodido. Para justificar o ato, os religiosos disseram ter como objetivo a purificação da terra, cortando o mal pela raiz. Tibira era uma palavra tupinambá para descrever os homossexuais e transexuais e teve grande difusão no país durante os dois primeiros séculos de colonização, aparecendo até mesmo em alguns documentos da Inquisição. Assim, o índio ficou conhecido como Tibira. Há um monumento em sua homenagem próximo ao local original do forte, hoje o Palácio dos Leões.

Mapa de São Luís em 1629
Mapa de São Luís em 1629 | Pequeno atlas do Maranhão e Grão-Pará | Autoria: Albernaz I, João Teixeira

O domínio francês durou pouco tempo pois, em 1615 os portugueses tiveram sucesso em expulsar os franceses do Maranhão. Ali começaram a plantação de cana-de-açúcar, que se tornou a principal atividade econômica da região. Para a produção do açúcar e da aguardente, os índios eram usados como mão de obra na lavoura.

A paz foi interrompida em 1641, quando chegou a São Luís uma esquadra formada por 18 embarcações holandesas. O país já havia tomado outras cidades do nordeste brasileiro, como Salvador, Recife e Olinda. Após uma guerrilha que durou cerca de três anos, os holandeses foram expulsos.

Museu Histórico e Artístico do Maranhão
Museu Histórico e Artístico do Maranhão

Já no final do século XVII, a produção de cana-de-açúcar, cacau e tabaco se expandiu e passou a ser voltada para a exportação, o que viabilizou a compra de escravos africanos – a maior parte deles trazida da atual Guiné-Bissau. Discordâncias quanto ao modelo de produção e o alto preço dos produtos importados (que continua até hoje, diga-se de passagem), levou à primeira insurreição da colônia contra Portugal, mas o movimento foi reprimido pelas forças governistas. No século seguinte, a economia foi alavancada pela guerra pela independência nos Estados Unidos, que interrompeu a produção de algodão dos americanos e levou o Maranhão a ser o principal fornecedor da matéria prima para a Inglaterra. O aumento do comércio e a proibição do uso de mão de obra indígena aumentou a demanda por escravos negros. O Museu Histórico e Artístico do Maranhão, localizado no centro histórico, reproduz uma casa da elite da sociedade dessa época.

Forte Santo Antônio da Barra
Forte Santo Antônio da Barra

Com esses conflitos, era necessário proteger a colônia de outras possíveis invasões. No final do século, em 1691, documentos registram que se iniciou a construção de uma fortaleza onde hoje se encontra o Forte Santo Antônio da Barra. As obras se deram em meio a dificuldades devido à falta de engenheiro, pedreiros, índios de serviço, materiais e cal. O fato é que a construção, inicialmente tida como fortaleza temporária, tornou-se, mais tarde, permanente. Depois de ficar em ruínas, foi reconstruída depois de 1771, estrutura essa que é a presente nos dias de hoje. Essa é uma das edificações militares mais antigas da capital. Sua localização na entrada da barra do porto de São Luís, antigamente chamada de Ponta de João Dias, era estratégica para a defesa da capital.

Rua Portugal
Rua Portugal, na Praia Grande

Em 1780, foi construída a Praça do Comércio, na Praia Grande, que se tornou o centro econômico e cultural de São Luís. Ali eram comercializados tecidos, móveis, livros, alimentos e vários produtos vindos do velho continente.

A cidade prosperou muito no século XVIII e XIX. Prova disso é a quantidade de construções históricas grandiosas no centro da cidade, muitas delas com os característicos azulejos em suas fachadas. Atualmente, são mais de 400 imóveis com azulejos antigos catalogados, com peças provenientes da Inglaterra, Bélgica, França, Alemanha, Espanha, Holanda e, claro, de Portugal. Os primeiros a receber o acabamento foram as edificações religiosas. Em 1670, foi feito o revestimento interno do antigo convento franciscano da Igreja de Santana e da Igreja do Rosário. Já em 1800, o sobrado na rua Oswaldo Cruz foi a primeira edificação civil azulejada da cidade. A partir de então, as fachadas de azulejos tomaram conta de São Luís, exercendo um papel ao mesmo tempo funcional e decorativo.

Centro de Promoção Artesanal do Maranhão (CEPRAMA)
Centro de Promoção Artesanal do Maranhão (CEPRAMA)

O comércio do algodão entrou em decadência no final do século XIX devido à recuperação da produção norte-americana e a abolição da escravatura. Com isso, a produção agrícola foi substituída pela indústria têxtil, atividade que colaborou para a expansão da cidade e o surgimento de novos bairros na periferia. Nessa época, foi construído o grande galpão da Fábrica Cânhamo, onde hoje funciona o Centro de Promoção Artesanal do Maranhão (CEPRAMA).

Com a decadência dessa indústria, a cidade ficou isolada do resto do país, só voltando a se recuperar após a primeira metade do século XX com investimentos como a construção da Estrada de Ferro Carajás e dos portos de Itaqui e Ponda da Madeira. Nas últimas décadas, com o desenvolvimento do potencial turístico dos Lençóis Maranhenses e as festas de bumba-meu-boi, a região também tem recebido turistas do mundo todo.

Pai Francisco, Bumba Meu Boi e Mãe Catirina
Pai Francisco, Bumba Meu Boi e Mãe Catirina

Com grande riqueza cultural no seu artesanato e festas populares, a cidade de São Luís se destaca pelas influências européias, indígenas e africanas. As três etnias se encontram nos festejos de boi, que acontecem no São João. A tradição teve início no século XVIII, quando se contava a lenda que envolve três diferentes raças que viviam na região: os índios, os brancos e os negros. A trama se passa em uma fazenda de foco na pecuária, comandada pelo homem branco, onde existe um boi precioso e especialmente querido pelo seu dono que, juntamente com seus vaqueiros, dispensam os maiores cuidados à sua prenda.

Nessa fazenda, a escrava Mãe Catirina, que está grávida, tem o desejo de comer a língua justamente do animal. A fim de atender aos seus incessantes apelos, o Pai Francisco, escravo de confiança do patrão, decide roubar o boi, matá-lo e dar a iguaria para a mulher comer. Descoberto o crime, Pai Francisco foge para a floresta e é perseguido pelos homens do fazendeiro, que não conseguem capturá-lo.

Com o fracasso dos vaqueiros, o fazendeiro recorre aos índios ou caboclos guerreiros, que conhecem melhor a mata e conseguem capturar o Pai Francisco, que passa por terríveis castigos físicos. Por fim, com a ajuda do pajé, Nego Chico consegue ressuscitar o boi, trazendo de volta a alegria e proporcionando uma festa com muita música e dança em volta do animal.

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