Centro histórico

São Luís – Passeio pelo centro histórico

Não há dúvidas de que o principal atrativo turístico de São Luís do Maranhão é o seu centro histórico. Apesar de estar bastante danificado pelo tempo e descaso, com uma parte considerável dos edifícios precisando urgentemente de reformas, vale muito à pena passear pelas ruas da região e visitar alguns dos seus museus. São milhares de imóveis tombados pelo Patrimônio Histórico Estadual e pelo Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (IPHAN). Além disso, o conjunto arquitetônico é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1997. Quanto a isso, é importante esclarecer que o boato surgido no ano de 2017 de que a cidade teria perdido esse título não é verdadeiro.

Como o local fica no centro da cidade, uma dica interessante é fazer o passeio em um dia de semana e durante o dia, quando as ruas ficam mais movimentadas e menos perigosas. Outra coisa importante: vá consciente de que uma grande parte dos casarões da região se encontra em ruínas, o que é bem triste, mas é possível enxergar como um certo charme. Além disso, há bastante sujeira nas ruas, retrato do descaso das autoridades e também da própria população local. Em contrapartida, os principais atrativos encontram-se revitalizados e existem projetos para estender esses trabalhos a outras propriedades.

Mapa do centro histórico
Mapa do centro histórico

Na visita ao centro histórico, recomendo que você se aventure por diferentes ruelas, pois há sempre a possibilidade de encontrar coisas interessantes e espaços que pedem uma sessão de fotos. Por exemplo: são mais de 400 imóveis com azulejos antigos catalogados, com peças provenientes da Inglaterra, Bélgica, França, Alemanha, Espanha, Holanda e, claro, de Portugal. Os primeiros a receber o acabamento foram as edificações religiosas. Em 1670, foi feito o revestimento interno do antigo convento franciscano da Igreja de Santana e da Igreja do Rosário. Já em 1800, o sobrado na rua Oswaldo Cruz foi a primeira edificação civil azulejada da cidade. A partir de então, as fachadas de azulejos tomaram conta de São Luís, exercendo um papel ao mesmo tempo funcional e decorativo. Agora se o seu negócio é um passeio mais orientado, recomendo o trajeto destacado no mapa acima, que passa pelos principais pontos que eu visitei do centro histórico.


(1) Museu Histórico e Artístico do Maranhão

Recomendo começar o passeio por esse museu que é uma representação de uma típica casa da alta sociedade maranhense dos séculos XVIII e XIX, toda decorada com móveis doados por famílias da região. Ali é possível observar a organização dos cômodos, a decoração, os objetos e figurinos utilizados na época. Mais que isso, é um retrato da sociedade machista, escravocrata, preconceituosa e que valorizava demasiadamente os costumes e valores europeus.

Museu Histórico e Artístico do Maranhão
Museu Histórico e Artístico do Maranhão

(2) Fonte do Ribeirão

Construída em 1796 para o abastecimento da cidade, essa fonte possui piso revestido de pedras de cantaria e cinco carrancas, figuras eram usadas para espantar os maus espíritos, na parte inferior e de onde sai a água. Ali está representado Netuno, Deus mitológico, senhor dos mares e das águas.

Essa curiosa fonte e suas galerias subterrâneas aparecem em variadas lendas urbanas. Dizem que os canais eram usados pelos frades para comunicações entre uma igreja e outra, para o transporte e fuga de escravos e comércio ilegal de ouro e pedras preciosas. Há também a história de que ali habita uma serpente encantada que cresce sem parar e, um dia, irá destruir a ilha de São Luís, quando a cauda encontrar a cabeça.

Fonte do Ribeirão
Fonte do Ribeirão

(3) Teatro Arthur Azevedo

Quando eu passei por lá, o edifício ainda estava em reforma e não foi possível visitar a parte interna. Trata-se de um dos mais antigos teatros do país, com mais de 200 anos de história e arquitetura neoclássica. Inaugurado em 1817, na época chamado Teatro União, é hoje um ambiente moderno e luxuoso, palco de grandes apresentações de arte.


(4) Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Construído em 1627, esse convento foi palco de importantes acontecimentos sociais e políticos da capital maranhense. Durante a invasão holandesa (1640-1644), serviu de quartel militar para os portugueses e abrigo para a população pobre. Findado o conflito, abrigou diversos órgãos, incluindo o Corpo de Artilharia e o Corpo da Polícia, a primeira biblioteca pública do estado e o Liceu Maranhense, uma tradicional escola de ensino médio de onde os alunos soltavam gritos pelo fim da monarquia e instituição da república.

Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo

A igreja possui estilo predominantemente barroco, com duas torres laterais de linhas simples e um frontão triangular clássico com cruzes de ferro. A porta principal e a fachada são, provavelmente, os únicos elementos primitivos, com essa última tendo recebido revestimento de azulejos em 1866.


(5) Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho

Domingos Vieira Filho foi um grande escritor da região e dá nome a esse centro de cultura criado em 1982. Instalado em um sobrado do século XIX, o museu apresenta uma coleção permanente de vestimentas, adereços e objetos usados em manifestações religiosas, festivas e folclóricas. A entrada é gratuita e o visitante pode percorrer as várias salas e andares da casa por conta própria ou com um guia do próprio local, que dará explicações sobre toda a exposição.


(6) Praça Nauro Machado, Praia Grande e Rua do Giz

Localizada no meio do centro histórico, essa praça é bastante frequentada pelo público alternativo da cidade, como LGBTs, hippies e rockers, nos finais de semana, também recebendo diversos eventos como as festas de São João, apresentações de Bumba Meu Boi e shows. Como eu passei por lá em dia útil, vi somente o espaço vazio e a passagem de pessoas que trabalham e circulam pela região. O nome da praça é uma homenagem ao poeta e escritor Nauro Diniz Machado.

Essa parte da Praia Grande que engloba a Rua do Giz (no Google Maps aparece como Rua 28 de Julho), a Rua Portugal, a Ladeira do Comércio e outras é fechada para o trânsito de carros, permitindo que seja feita uma caminhada tranquila. Como o calçamento é de paralelepípedo e é preciso subir e descer ladeiras e escadarias, é recomendado utilizar um tênis apropriado, além de usar roupas leves e protetor solar.

Rua do Giz
Rua do Giz

(7) Restaurante Escola Senac

No meu passeio pelo centro histórico, aproveitei para almoçar nesse restaurante que é uma referência da gastronomia regional do Maranhão. A comida é preparada pelos próprios estudantes, que também fazem todo o atendimento e serviço da casa. Abrindo somente no horário de almoço, o restaurante funciona com serviço buffet, no qual você paga um valor e pode servir à vontade as entradas, pratos principais e sobremesas. Bebidas e a gorjeta são pagas à parte. Essa é uma boa opção para comer no meio do dia, quando já se percorreu uma boa parte das atrações da região e é preciso forrar o estômago e descansar as pernas.

Restaurante Escola Senac
Restaurante Escola Senac

(8) Praça Benedito Leite

Outra oportunidade para um descanso é sentar em um dos bancos da praça e ficar observando a movimentação das pessoas. Originalmente conhecido como Largo Velho do Val, esse local foi muito frequentado por prostitutas. A partir do século XIX, foi urbanizada e virou um jardim botânico, que depois foi desmanchado e as grades que cercavam o local derrubadas. Recebeu o nome de Praça Benedito Pereira Leite em homenagem ao estadista, que aparece em uma estátua do canteiro central.

Praça Benedito Leite
Praça Benedito Leite

(9) Igreja da Sé

A construção desse edifício teve início em 1622 para servir de sede ao Colégio e à Igreja de Nossa Senhora da Luz, no local onde ficava uma ermida criada na época da dominação francesa. No século seguinte, o colégio passou a ser o palácio dos bispos e a igreja tornou-se a catedral da cidade. No início do século XX, a fachada ganhou duas torres e a catedral foi elevada a sede da arquidiocese. Quando eu passei por lá, a catedral estava fechada, então não pude conhecer o seu interior.

Catedral de São Luís
Catedral de São Luís

(10) Museu de Arte Sacra

Nesse edifício anexo à catedral, funciona o Museu de Arte Sacra. A visita à exposição ali apresentada é uma boa oportunidade de conhecer um pouco da história da cidade, cuja fundação teve uma celebração de missa dos jesuítas. As centenas de peças da mostra incluem esculturas, cálices, crucifixos e outros objetos utilizados nas missas.


(11) Prefeitura de São Luís

Com data estimada de construção no final do século XVIII, esse edifício abrigou a Penitenciária Estadual até meados do século XX. Atualmente funciona ali a prefeitura da cidade. Também na Avenida Dom Pedro II, há outros órgãos importantes, como o Tribunal de Justiça e o Fórum.


(12) Palácio dos Leões

Também na mesma avenida está esse palácio de arquitetura neoclássica que serve como residência oficial e sede do Governo do Maranhão. Com 3.000 m2 de área construída, ficou conhecido como Palácio dos Leões devido às esculturas de bronze que guardam as suas entradas. De frente para a Baía de São Marcos, o edifício era originalmente o Forte de São Luís, que foi adaptado para palácio no ano de 1776. Além da vista da fachada, pode ser feita uma visita interna para conhecer as obras de arte e relíquias históricas expostas em seu interior.

Palácio dos Leões
Palácio dos Leões

(13) Capitania dos Portos do Maranhão

Também com vista para a baía, do outro lado da avenida, está a capitania dos portos, que funciona em uma bonita construção bem integrada com a descida para o cais. Os carros passam por baixo do viaduto, enquanto os pedestres descem por essa ladeira que possui uma pracinha.


(14) Ruínas do Cais da Sagração

Um dos pontos de interesse nessa descida para o cais é um monumento erguido em referência ao Tibira, o primeiro caso de homofobia do Brasil. Curioso para saber do que se tratava, dei uma pesquisada na internet sobre a história.

Capitania dos Portos do Maranhão
Capitania dos Portos do Maranhão

A região era habitada por indígenas, principalmente os Tupinambás. Na visão dos missionários e cronistas portugueses e franceses da época, os índios, que andavam nus, eram polígamos, incestuosos e sodomitas. Ou seja, a verdadeira representação do diabo na Terra. Tibira era uma palavra tupinambá para descrever os homossexuais e transexuais e teve grande difusão no país durante os dois primeiros séculos de colonização, aparecendo até mesmo em alguns documentos da Inquisição.

O fato é que, poucos meses após a chegada colonos e missionários franceses ao Maranhão, promoveu-se a execução de um índio homossexual – o primeiro crime homofóbico documentado do país. Para justificar o ato, os religiosos disseram ter como objetivo a purificação da terra, cortando o mal pela raiz.


(15) Casa do Maranhão

Dos museus que tratam a parte do folclore maranhense, esse foi o que mais me agradou. A exposição é bem organizada no extenso galpão do segundo andar desse casarão histórico em frente ao cais. Ali também é mostrado o preconceito, dessa vez principalmente a questão racial que separava os negros dos europeus. A maior parte da exposição faz referência às festas de boi, que teve início como uma brincadeira de escravos e chegou a ser perseguida radicalmente pelos políticos e pela polícia, mas hoje se encontra estabelecida como uma democrática manifestação popular do estado.

Pai Francisco, Bumba Meu Boi e Mãe Catirina
Casa do Maranhão

(16) Casa de Nhozinho

O nome desse museu é homenagem a Antônio Bruno Pinto Nogueira, o Nhozinho, nascido no início do século XX em uma cidade litorânea do norte do Maranhão. Após uma infância normal, desenvolveu uma doença a partir dos 12 anos de idade que lhe comprometia as funções motoras. Preso à cama, desenvolveu suas habilidades manuais com a fabricação de brinquedos e outros objetos como presépios, barcos, papagaios, carrinhos de boi, cofres, miniaturas de animais e bonecos de madeira. Posteriormente, a matéria prima foi substituída por buriti, haste porosa de uma palmeira nativa do Maranhão, mais macia e maleável para o corte. Além das obras do artesão, estão expostas nesse sobrado peças provenientes de diversas técnicas, além de objetos e artefatos do cotidiano regional, como pilões, carros de boi, utensílios de pesca, miniaturas de embarcações, trajes de festas populares e artesanato indígena.

Roda de bumba-meu-boi
Casa de Nhozinho

(17) Mercado das Tulhas

Também conhecido como Feira da Praia Grande, esse mercadão funciona em uma construção do século XIX que foi dividida em diversos quiosques para a venda de produtos regionais como cachaças (incluindo a tiquira, feita a partir da mandioca), doces, licores, alimentos diversos, temperos, roupas e acessórios, panelas, temperos e tudo o que se pode imaginar.

Eu sempre visito esse tipo de mercado, ainda que, na maioria das vezes, acabe não comprando nada. É uma forma de conhecer melhor os costumes locais, o que as pessoas comem, o que usam, como vivem, hoje, no Globo Repórter.

Mercado das Tulhas
Mercado das Tulhas

(18) Convento das Mercês

Descendo pela Rua da Palma, fomos andando até o Convento das Mercês. Construído no século XVII, o extenso edifício é considerado um dos Sete Tesouros do Patrimônio Cultural Material de São Luís. Além da arquitetura colonial, é possível visitar ali uma significativa exposição sobre a história da república, cujos itens foram doados pelo ex-presidente José Sarney.

Convento das Mercês
Convento das Mercês

Depois de tanto caminhar no sol, visitar vários museus e ver tantos prédios históricos, estávamos muito cansados e demos por encerrado o passeio. Para quem tiver um pouco mais de energia, vale a pena dar uma esticada até o Centro de Produção Artesanal do Maranhão (CEPRAMA). Eu ainda ia ficar mais em São Luís, então acabei indo lá em outro dia, já que ele fica um pouco mais afastado.

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