Elevador Lacerda

Salvador – Elevador Lacerda

Quem visita a cidade logo percebe uma particularidade muito interessante em seu relevo: a elevação abrupta próxima à costa, em média com 85 metros de diferença entre a parte inferior e a superior, acaba por dividir Salvador em duas partes que ficaram conhecidas como Cidade Baixa e Cidade Alta. Como se pode imaginar, essa configuração natural era um problema para o local, já que o transporte entre os dois níveis era feito através de ladeiras íngremes e longas escadarias, além do uso de guindastes para subir e descer com cargas. A situação se agravou com a expansão dessa que era a capital da colônia portuguesa.

Praça Visconde de Cairu
Praça Visconde de Cairu

Daí veio o plano de Antônio Lacerda de construir o Elevador Hidráulico da Conceição. Mais que ligar as partes baixa e alta da cidade, isso possibilitaria articular as linhas de bonde urbano, facilitando o transporte para o sul, que estava crescendo. A empresa familiar Antônio de Lacerda & Cia, cujo principal sócio era seu pai, havia comprado os direitos de construção de linhas de transporte na encosta e a firma, que se transformou na Companhia de Transportes Urbanos, levou à frente o projeto.

Construção da década de 1870
Construção da década de 1870

A construção do primeiro elevador urbano do mundo teve como principais desafios a perfuração de dois túneis na Ladeira da Montanha: um vertical, para abrigar a torre; e outro na horizontal, permitindo o acesso à rua. Embora fosse bastante inovador para a época, o projeto recebeu críticas, principalmente por usar pouco ferro, um dos símbolos dos avanços da engenharia e arquitetura naquele momento. O mecanismo usava uma máquina a vapor e uma grande peça em espiral para impulsionar as cabines, que viajavam por 63 metros de altura.

Primeira versão
Primeira versão

Após quatro anos de obras, em 1873, foi inaugurado o elevador que ficou popularmente conhecido como parafuso (devido ao espiral) e passou a ser o principal meio de transporte entre a Cidade Alta, onde se encontra o centro histórico, e a Cidade Baixa, região portuária que concentrava as atividades financeiras e comerciais. Na estrutura inicial, cada passageiro precisava ser pesado individualmente e eram feitos cálculos até atingir o limite máximo de segurança para as duas cabines. Obviamente, continuaram a existir as ruas e escadas, mas o Elevador Lacerda, que recebeu o nome atual em 1896, logo se popularizou como a melhor opção para ir direto de um ponto ao outro.

Ladeira da Montanha nos anos 1960
Ladeira da Montanha nos anos 1960

Vários avanços foram feitos ao longo dos anos seguintes para melhorar o sistema, mais notadamente a eletrificação de 1906; a adição de mais dois elevadores e uma nova torre em 1930; uma reforma completa da parte mecânica ao final da década de 1950 e início da seguinte; a revisão da estrutura de concreto no início dos anos 1980; e a reforma geral de todo o maquinário elétrico e eletrônico em 1997. Dessas, a principal foi a reestruturação de 1930, quando se passou de duas cabines para quatro, cada uma delas com capacidade para transportar até 27 passageiros, e a parte visual da arquitetura em estilo art déco. A torre nova é a que se encontra destacada da montanha, ligada à estrutura original por uma longa passarela.

Vista interna
Vista interna

A parte interna tem pisos e paredes de granito e grandes janelas que permitem apreciar a paisagem. A maioria das pessoas que passa pelo local precisa mesmo de ir do ponto mais alto para o mais baixo ou vice-versa, então não há uma grande preocupação turística com o transporte em si. Basicamente você entra e segue o fluxo, paga pelo bilhete, passa pela catraca e entra em um dos elevadores não panorâmicos, então você não enxerga nada da paisagem quando está fazendo a subida ou descida – um grande desperdício, na minha opinião.

Escadaria entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa
Escadaria entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa

Por isso mesmo, recomendo apreciar a arquitetura do Elevador Lacerda quando estiver do lado de fora. Uma opção para os mais empolgados é descer as escadas e ladeiras a pé, apreciando a paisagem por ângulos diversos, já que para baixo todo santo ajuda. Da parte inferior, você consegue ter uma dimensão melhor da altura e pode perceber os desafios enfrentados pelos engenheiros na construção da obra.

Edifício em estilo neoclássico
Mercado Modelo

Na Cidade Baixa, os passageiros entram e saem do elevador na Praça Visconde de Cairu, onde fica outro dos principais pontos turísticos da cidade, o Mercado Modelo. Também é possível visitar a Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia e ver muitos prédios históricos. Depois de visitar os pontos turísticos, pode-se subir novamente, dessa vez pelo elevador.

Vista da Praça Tomé de Sousa
Vista da Praça Tomé de Sousa

Assim você pode se programar para estar lá em cima mais para o fim do dia, já que se tem uma bela vista da baía e o pôr-do-sol é espetáculo imperdível. Atualmente, cada um dos quatro elevadores transporta 32 passageiros, totalizando 128 pessoas, e a viagem por 72 metros é feita em pouco mais que vinte segundos. Por ali passam cerca de 30 mil moradores e turistas todos os dias. Em cima fica a Praça Tomé de Sousa, que dá acesso aos museus, igrejas, restaurantes e outros atrativos do centro histórico de Salvador, notadamente o Pelourinho. Ao cair a noite, a iluminação noturna confere novas cores à fachada.

Iluminação noturna
Iluminação noturna | Foto: Ciro Amado

Como há ótimos atrativos tanto na parte baixa quanto na alta, todo mundo que visita a cidade vai fazer o trajeto entre os dois níveis usando o elevador que, o bolso agradece, custa apenas alguns centavos. Não é à toa que ele se tornou um dos principais cartões postais de Salvador. Eu já visitei a capital da Bahia várias vezes ao longo dos últimos anos e sempre passo por lá.

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