Centro histórico de Alcântara

Alcântara – Passeio pelo centro histórico

Alcântara está entre as mais antigas cidades do estado do Maranhão. Sua fundação se deu antes mesmo da capital, São Luís. Não é surpresa, portanto, que o grande atrativo local seja o passeio pelo centro histórico, repleto de casarões coloniais e ruínas de construções grandiosas. Em 22 de dezembro de 1648, há exatos 300 anos de sua elevação a Vila, Alcântara foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Cidade Histórica e Monumento Nacional.

O passeio pelo centro histórico da cidade pode ser feito por conta própria, como eu mesmo fiz. Digo isso porque encontrei lá um grupo que estava sendo acompanhado por um guia aborrecidíssimo de chato e eles estavam extremamente insatisfeitos. Pode ter sido má sorte de pegar uma pessoa ruim… Mas, como eu não tenho ninguém e nenhuma agência para indicar, fica a dica de que é muito tranquilo ir sozinho.

Como a cidade é pequena, tudo pode e deve ser percorrido a pé, para possibilitar observar melhor todos os detalhes da arquitetura. O passeio pode durar poucas horas ou um dia inteiro, dependendo do quanto você pretende explorar dos pontos turísticos, visitas aos museus, tempo para fotografar e dar pausa para o almoço. Vou fazer aqui uma rápida descrição por todos os lugares por onde passei. Aproveitei para deixar traçado a sugestão do caminho a ser percorrido, como mostra o mapa interativo acima. Obviamente, não é necessário seguir nada à risca. Eu inclusive recomendo a quem tiver mais tempo disponível na cidade percorrer outras ruas, porque há várias fachadas interessantes, ou fazer um passeio de barco. Eu dormi uma noite na Pousada La Maison du Baron, então tive tempo de explorar os caminhos alternativos.


Porto do Jacaré e Terminal Hidroviário

Para quem pega o transporte de barco de São Luís, esse é o ponto de chegada em Alcântara. O porto se encontra na cabeceira do rio Jacaré. Na sede do terminal ficam os guichês da empresa que prestam o serviço de traslado entre as duas cidades, sala de espera, uma lanchonete, banheiros, uma loja de produtos artesanais produzidor por quilombas que moram nas proximidades e uma agência de turismo. Os serviços da agência incluem passeio pelo centro histórico da cidade, visita aos museus, barco para as ilhas próximas e lazer na praia. Como eu fiz tudo por conta própria, não posso indicar o serviço.

Terminal Hidroviário de Alcântara
Terminal Hidroviário de Alcântara

Ladeira do Jacaré

Esse morro é o principal acesso entre a cidade baixa e a cidade alta. São cerca de 500 metros de subida. Como eu ia passar a noite na cidade e estava com uma mochila nas costas, achei um pouco cansativo, tanto pela inclinação, quanto pelo calor de meio-dia.

Destaque para as casas coloridas e o calçamento da rua que forma losangos com o uso de pedras brancas e pretas. O trabalho foi feito por escravos na época da construção da cidade e tinha como objetivo agradar a Dom Pedro II fazendo alusão à maçonaria, instituição da qual era membro e representante em toda a Corte. Também há no caminho algumas construções em ruínas.

Ladeira do Jacaré
Ladeira do Jacaré

Rua das Mercês

No encontro da Ladeira do Jacaré com a Rua das Mercês havia o Convento da Ordem dos Mercedários, fundado em 1656. A construção grandiosa foi abandonada no período de decadência comercial da cidade e parte da construção foi demolida para dar lugar a uma extensa praça, que passou a ser palco de eventos. O que resta da estrutura é a Capela das Mercês, que é usada, esporadicamente, para celebrações religiosas. Quando eu passei por lá a capela estava fechada, então não pude ver o seu interior.

Capela das Mercês
Capela das Mercês

Dali se pode fazer um desvio para a rua de trás para ver a Fonte das Pedras, uma construção do século XVIII decorada com a pedra cabeça de negro. Esta fonte servia de abastecimento para as famílias menos abastadas e escravos.


Capela do Desterro

Também na Rua das Mercês se encontra o acesso para a Capela Nossa Senhora do Desterro, que fica em um passo utilizado nas celebrações de Páscoa e Semana Santa. Dessa capela se destacam as imagens barrocas do altar. A imagem de Nossa Senhora da Guia ou Navegantes fica voltada para o mar. Os sinos ficam do lado de fora e reza a lenda que quaisquer pedidos encaminhados a Nossa Senhora do Desterro acompanhado do toque desses sinos serão atendidos sem demora.

Capela do Desterro
Capela do Desterro

Ali também funciona o Restaurante Cantaria, famoso entre os turistas que visitam a região. O restaurante é bastante simples, mas a comida é realmente gostosa. Além disso, é servida em mesas dispostas com vista para a Baía de São Marcos.


Praça da Matriz

Continuando a caminhada pela Rua das Mercês, chega-se até a Praça da Matriz. Essa é a principal praça da cidade e, como era de se esperar, está rodeada por construções imponentes. Em uma das laterais funcionam o Museu Casa Histórica de Alcântara e o Museu Histórico. O primeiro era o sobrado da família Viveiros, à qual pertencia o Barão de São Bento, e, posteriormente, passou à Família Guimarães. Ali estão registos dos costumes do final do século XVII. O museu ao lado funciona em um belo exemplar da arquitetura portuguesa do século XIX, possuindo fachada azulejada. O acervo conta com objetos que marcaram a memória da cidade.

Museu Casa Histórica e Museu Histórico
Museu Casa Histórica e Museu Histórico

O grande destaque da praça são as ruínas da Igreja Matriz de São Matias. Datada do século XVII, essa edificação tinha como objetivo ser a principal igreja da cidade. Historiadores afirmam que a construção nunca chegou a ser concluída, embora a estrutura tenha sido utilizada para cultos. Sabe-se que, em 1869, foi nomeada uma comissão a mando do presidente da província para concluir a obra, mas a estrutura ficou em situação de abandono, restando-lhe apenas a fachada, vestígios do campanário e das paredes laterais construídos em pedra e cal.

Igreja Matriz de São Matias e Pelourinho
Igreja Matriz de São Matias e Pelourinho

Na praça, cujo nome oficial é homenagem ao ex-Governador do Maranhão Gomes de Castro, está o Pelourinho, monumento erguido no século XVII pelo donatário da Capitania de Cumã, o Capitão Antonio Coelho de Carvalho. Ali está representada a liberdade municipal e a autoridade da Câmara. No topo, encontram-se talhadas em pedra de lioz as armas portuguesas.

Câmara e cadeia
Câmara e cadeia

Falando em Câmara, a instituição ficava justamente de frente para a igreja. A edificação foi construída na segunda metade do século XVIII e serviu, até o início do século XX, como sede do poder legislativo municipal e como cadeia da cidade. No ano de 1948, o prédio foi transformado em Penitenciária Estadual, o que ajudou a afastar os moradores da cidade. Já em 1965, voltou a ser posse da prefeitura e, anos depois, passou a funcionar ali os Poderes Executivo e Legislativo do município.


Rua da Amargura

Oficialmente chamada de Bela Vista, é nessa rua que se encontra o maior número de ruínas da cidade. Por ali estão espalhados os monumentos que representam a Paixão de Cristo, já que era passagem da celebração no período religioso da Semana Santa. O local ficou abandonado após o fim da escravatura e o declínio econômico e social da cidade.

Rua da Amargura
Rua da Amargura

Essa rua se destaca por ser um ótimo mirante para a Baía de São marcos e da Ilha de São Luís. Virando pelo Beco da Boa Vista, passamos pelas Ruínas do Palácio Preto, um palacete do século XIX onde viveu a família do Brigadeiro José Theodoro de Azevedo Coutinho, o Barão de Mearim. Diz a tradição oral que o local recebeu este nome após uma das filhas do barão se casar com um mulato, o que causou muito desgosto no pai. Ele então teria posto luto no sobrado e deserdado a filha. Também teria funcionado ali o Mercado de Escravos.

Palácio Preto
Palácio Preto

Museu do Divino

Esse prédio de azulejos amarelos pertenceu ao Major Francisco Cândido de Sá, pertencente a uma família nobre de Alcântara. Atualmente, funciona ali o Museu do Divino, cujo acervo retrata a maior tradição da cidade: a Festa do Divino Espírito Santo. Instituída pela rainha Dona Isabel, em Portugal, no século XII, essa celebração surgiu teve origens no bodo (distribuição de esmolas). Trazida para o Brasil no século XVI, a festa profano-religiosa teve vários elementos da cultura negra introduzidas nos seus rituais. A Festa do Divino se inicia 40 dias depois da páscoa.

Casa do Divino
Casa do Divino

Ruínas do Palácio do Imperador

Na época da colônia, surgiu um boato de que o imperador do Brasil faria uma visita a Alcântara, uma localidade de grande importância econômica à época. Com isso, tanto o partido conservador quanto o partido liberal iniciaram a construção de palácios para hospedar o ilustre Dom Pedro II. Dizem que, tomando conhecimento da disputa na cidade e com o objetivo de manter sua popularidade entre os conservadores e os liberais, o imperador cancelou a viagem e nunca chegou a ir ao Maranhão.

Ruínas do Palácio do Imperador
Ruínas do Palácio do Imperador

Igreja Nossa Senhora do Carmo

Passei pela primeira vez na frente dessa igreja quando eu estava indo em direção à Pousada La Maison du Baron, já que eu queria deixar a minha mochila no chalé para não ter que ficar caminhando com peso. Ela estava fechada, mas aproveitei para tirar algumas fotos da fachada e do entorno. Mais tarde, depois de almoçar e dar uma volta pelo centro da cidade, encontrei ela aberta e pude ver o interior, que possui um altar barroco decorado a ouro, belas esculturas de madeira e painéis de azulejos portugueses. Sua grandiosidade é um exemplo da riqueza e da importância da cidade entre os séculos XVII e XVIII. Ao lado da igreja, encontram-se as ruínas do antigo convento da mesma ordem.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Mais tarde, passando novamente em frente ao local, pude presenciar uma grande movimentação da população local. Estava sendo realizada uma missa, mas do lado de fora, com bastante gente, música, pessoas vendendo comida, enfim, um grande evento. Essa foi a vantagem de ter dormido uma noite por lá: poder testemunhar a movimentação da população local que, durante o dia, parecia estar toda se escondendo do sol.

Aliás, devo dizer que dou total razão a esse comportamento, pois estava super agradável dar uma volta pela cidade com o clima mais fresco. Vi que muitas casas que estavam fechadas durante o dia abriram suas portas e janelas, com várias pessoas colocando cadeiras nas calçadas.

Rua Grande
Rua Grande

Ruínas da Ordem Terceira de São Francisco

Antes de anoitecer, entretanto, ainda segui pela Rua Miritua, onde se concentra boa parte do comércio do centro da cidade. Ali visitei as Ruínas da Igreja de São Francisco de Assis que, segundo alguns historiadores, não chegou a ser concluída.


Centro de Cultura Aeroespacial

Essa outra atração da cidade, bem diferente da parte histórica, fica na Rua do Cemitério. Trata-se de um museu tecnológico instalado em um casarão do século XIX que possui em seu acervo réplicas de foguetes e informações sobre o programa aeroespacial brasileiro. Pode parecer inusitado, mas Alcântara foi escolhida como sede para esse centro de lançamento devido à sua localização, bem próxima à linha do Equador. Ali as condições são favoráveis para a colocação de satélites em órbitas equatoriais, o que leva a uma grande economia se comparado a localidades de latitudes mais elevadas. Além disso, sua altitude com relação ao mar e o clima com regime de chuvas bem definido, pouca variação de temperatura e ventos predominantemente dentro dos limites aceitáveis contribuíram para a decisão.

Centro de Cultura Aeroespacial
Centro de Cultura Aeroespacial

Exatamente na frente desse museu se encontra a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que só vi do lado de fora porque estava fechada. Sua história teve início em 1780, quando o Senado da Câmara concedeu o terreno para a sua construção, que aconteceu nos anos seguintes.


Outros passeios

No segundo dia, eu tinha ainda a manhã livre e aproveitei para dar voltas pelas outras ruas da cidade. Pertinho da minha pousada, passei pelas Ruínas da Igreja de Santa Quitéria, cuja construção data do século XVIII. Também peguei um caminho de terra que levava até o Forte de São Sebastião, erguido a partir de 1763. Segui passando por ruas que se encontram fora do centro histórico e mais turístico da cidade. O que se destacou ali foi a situação de pobreza em que vivem aquelas famílias, um cenário triste, que não é visto pela maioria das pessoas que visitam Alcântara.

Acabei decidindo não fazer nenhum passeio de barco, que era o meu plano inicial ao decidir passar a noite na cidade. Fiquei mesmo focado em explorar as ruas a pé e aproveitar o clima pacato.

No geral, achei que o centro histórico da cidade está bem conservado – certamente em melhores condições do que o de São Luís. As ruínas estão muito abandonadas, muitas vezes com lixo e sem nenhuma proteção. Os museus também precisam se estruturar melhor. De qualquer maneira, vale muito a pena fazer o passeio e conhecer um pouco da história dessa cidade que foi tão importante na época do Brasil colônia.

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