Filme "Les enfants du paradis"

O boulevard do crime ★★★★★

Título original: Les enfants du paradis
Ano: 1945
Direção: Marcel Carné
Elenco: Arletty, Jean-Louis Barrault, Pierre Brasseaur, Marcel Herrand e Pierre Renoir.

Em francês, paradis é o nome coloquial dado à galeria ou segundo balcão do teatro, de onde a plateia comum assiste à peça e reage com honestidade e algazarra. É para esse público que os atores se dirigem, tentando ganhar seu apoio. O filme contém diversas tomadas da audiência se pendurando no parapeito desses balcões. A tradução literal do título seria “Filhos do Paraíso”, mas recebeu no Brasil se chama “O Boulevard do Crime” – os brasileiros são sempre bem criativos nessas adaptações de nomes de obras. Nesse caso, entretanto, até que eles não fogem tanto da proposta do filme. Explico: o filme, com 3h10m de duração, foi dividido em duas partes na época de seu lançamento: Boulevard du Crime (Boulevard do Crime) e L’homme blanc (O homem de branco).

Público do teatro
Público do teatro

O roteiro escrito por Jacques Prévert se passa durante os anos de 1830 a 1848, na região do teatro Funambules, localizado no Boulevard du Temple, que era chamado pejorativamente de Boulevard du Crime. O apelido não é referência a uma extrema periculosidade local, mas sim à quantidade de melodramas criminais que eram performados todas as noites em seus teatros. Na verdade, essa era uma das áreas mais populares de Paris, com cerca de 20.000 pessoas passando todas as noites ali para caminhar, cantar, rir e se divertir.

O enredo narra como quatro homens – o mímico Baptiste Debureau (Jean-Louis Barrault), o ator Frédérick Lemaître (Pierre Brasseur), o ladrão Pierre François Lacenaire (Marcel Herrand) e o aristocrata Édouard de Montray (Louis Salou) – se apaixonam e disputam o amor da bela e carismática cortesã chamada Garance (Arletty). Os quatro homens são baseados em personalidades francesas reais da época retratada no filme, sendo o último inspirado no Duc de Morny.

O ator e sua musa
O ator e sua musa

Não gosto de entrar em muitos detalhes sobre a história para não atrapalhar a experiência de quem ainda não assistiu, mas destaco as cenas que comparam o trabalho do mímico e do ator. Aliás, para mim, o ponto alto da obra é justamente a interpretação de Jean-Louis Barrault e suas apresentações no teatro de pantomima (uma pena que são poucas). É claro que, por se tratar de um filme da década de 1950, o estilo é bem diferente do atual e alguns espectadores podem estranhar as atuações, o formato da imagem quase quadrado e o filme em preto e branco. Mas, para quem está acostumado com filmes clássicos, isso só irá enriquecer a experiência.

Baptiste e Garance
Baptiste e Garance

Aliás, a produção se deu em condições difíceis, como se pode imaginar pelo ano da obra. Algumas limitações foram impostas pela ocupação germânica na França durante a Segunda Guerra Mundial – Alexandre Trauner, da produção de locação, e Joseph Kosma, que compôs a trilha sonora, eram judeus e tiveram que trabalhar em segredo; muitos dos figurantes eram agentes que usavam o trabalho no filme como disfarce; os suprimentos eram poucos e precisavam ser racionados; o financiamento, originalmente uma produção franco-italiana, foi cortado pouco após o início das filmagens quando conquistaram a Sicília; o produtor André Paulvé, que tinha remota ancestralidade judia, foi proibido de trabalhar na produção, que ficou suspensa por três meses; os sets de filmagem de Nice foram duramente danificados por uma tempestade e precisaram ser reconstruídos; nesse meio tempo, houve uma troca de diretor de fotografia, que precisou analisar todas as tomadas já gravadas para manter o mesmo esquema de iluminação; após a liberação de Paris, um dos atores foi condenado à morte por colaborar com os nazistas, sendo substituído por Pierre Renoir (irmão mais velho do diretor Jean Renoir e filho do famoso pintor), sendo necessário refilmar várias cenas; além disso, a obra precisou ser dividida em duas parte porque havia uma limitação de 90 minutos de duração para filmes. Ou seja, é incrível que esse filme tenha saído.

Cena externa de
Cena externa de “Les enfants du paradis”

Apesar de todos os problemas, o filme foi concluído e se tornou um sucesso de público e crítica. A obra foi a terceira mais vista na França no ano de 1945 e aparece em diversas listas de melhores filmes de todos os tempos. Em 2012, a Pathé lançou uma versão restaurada do filme em Blu-ray. Apesar de ter mais de três horas de duração, não achei o filme cansativo e ele pode ser visto na sua configuração de duas partes. A primeira eu acho superior, mas a segunda parte não decepciona. Se você tem curiosidade sobre a época, as personalidades retratadas, os bastidores do teatro parisiense ou gosta de uma boa história dramática, vale muito à pena assistir a esse filme.

Cadernos

Inspirada na figura clássica do mímico francês, foi criada a arte Le mime, que pode ser adquirida em formatos diversos de cadernos na Loja Viajento como parte da Coleção França.

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