One child nation

One child nation ★★★★☆

Ano: 2019
Direção: Nanfu Wang e Jialing Zhang

Quando nasceu em uma pequena vila rural chinesa, Nanfu Wang contrariou a vontade dos pais, que esperavam por um bebê do sexo masculino e já haviam escolhido o nome: Nan (homem) + Fu (pilar). Embora tenha vindo uma menina, eles mantiveram a escolha na esperança de que ela se tornasse forte como um homem. Aos doze anos de idade, após perder o pai, ela se viu forçada a abandonar a escola e trabalhar para ajudar no sustento da família. Embora tenha passado por muitas dificuldades, ela se sentia orgulhosa do governo do país, pois não tinha ideia de como a política de filhos únicos havia influenciado na sua vida.

Nanfu Wang, uma das diretoras do filme
Nanfu Wang, uma das diretoras do filme

Anos depois, já morando em solo americano e grávida de seu primeiro filho, ela passou a refletir sobre a questão e voltou para a China com o objetivo de gravar esse documentário sobre o tema, entrevistando membros de sua própria família, conhecidos que moravam na região e profissionais que tiveram sua atuação atrelada às limitações, como uma parteira, o oficial de planejamento familiar, o chefe de vila, um jornalista e um artista. O resultado é um retrato esclarecedor e chocante de como as mais diversas pessoas foram e continuam sendo afetadas pelas decisões do governo.

Entrevista com pessoas da comunidade
Entrevista com pessoas da comunidade

A política do filho único foi parte de um amplo programa que tinha como objetivo controlar o crescimento da população. Ao contrário dos planejamentos familiares presentes em outros países, o governo chinês adotou medidas extremas como obrigar mulheres o uso de contraceptivos, cirurgias de esterilização e abortos forçados, além de aplicar multas surreais a famílias que violassem as regras. Com apenas um filho, os pais recebiam incentivos financeiros e morais. Após cerca de trinta anos em vigor, o país passou a incentivar o nascimento de dois filhos.

Anúncios de filhos órfãos nos jornais
Anúncios de filhos órfãos nos jornais

Ambas as diretoras do filme nasceram nessa época de controle da natalidade, sendo que Nanfu só teve um irmão porque era permitido, em um momento de afrouxamento das regras, que as famílias de comunidades rurais tentassem novamente a sorte caso os pais tivessem a infelicidade de ter uma menina. Esse sexismo institucionalizado aprofundou a percepção da mulher como inferior ao homem e levou a um elevado número de bebês do sexo feminino sendo abandonados, assassinados ou traficados para o exterior.

Propaganda do programa de filho único
Propaganda do programa de filho único

Enquanto isso, a cultura popular era bombardeada com propagandas que vendiam um ideal de família perfeita com filhos únicos, conceito difundido em cartas de baralho, adesivos, cartazes, performances artísticas e outros meios midiáticos, com uma mistura de convencimento, ameaças e fake news. Em muitos momentos, me peguei recordando a leitura do ótimo livro 1984, de George Orwell, incluindo a constante vigilância sobre a vida privada dos habitantes.

Bebê descartado no lixo
Bebê descartado no lixo

Embora pudesse ter se aprofundado mais em alguns aspectos, o filme não perde sua força ao focar em pessoas comuns refletindo sobre as atrocidades por que passaram ou, em muitos casos, que se viram obrigadas a cometer. O documentário até ultrapassa essa questão ao mostrar a lealdade de alguns personagens ao ideal nacionalista defendido pelo um governo totalitário, servindo de alerta para outras nações onde essas forças ainda ganham apoio em tempos atuais. One child nation está disponível na Amazon Prime Video para todos os assinantes.

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