Diários de Bicicleta

Diários de bicicleta ★★★★☆

Ano: 2009
Autor: David Byrne

Eu já conhecia um pouco do cantor e compositor David Byrne como um dos membros fundadores do grupo Talking Heads e, depois, pela sua carreira solo. Além da música, o artista encabeça uma série de projetos nas artes plásticas, no teatro e no cinema. O que eu não sabia é que ele era um ativista do uso da bicicleta como meio de transporte cotidiano, algo que tem ganhado força nos últimos tempos como uma alternativa para melhoria no trânsito e aumento do bem-estar, e escreveu diversas vezes sobre o tema. De fato, ele tem usado o veículo há décadas como seu principal meio de locomoção, seja no dia-a-dia em Nova York, onde mora, seja quando viaja para outros lugares e leva uma bicicleta dobrável na mala.

David Byrne
David Byrne

Em Diários de bicicleta, lançado em 2009, o autor reúne textos escritos ao longo de anos em suas passagens por cidades diversas ao redor do mundo, geralmente quando estava em turnês e reservava um tempo extra para conhecer melhor cada local. O estilo varia entre ensaios, relatos de viagem, diário pessoal e álbuns de fotografias, tendo como ligação as explorações feitas nos passeios sobre duas rodas que, segundo o autor, proporciona uma forma particular de ver o mundo. É um jeito de se conectar melhor com a vida nas ruas, sem as limitações visuais impostas por um carro. Também garante mais liberdade, já que seu caminho não fica pré-determinado como quando se usa o transporte público. Por fim, pedalar pode te levar de um ponto ao outro até mesmo mais rápido quando comparado a um trânsito engarrafado.

Diários de Bicicleta

Organizado em capítulos que levam o nome dos locais visitados, o autor reflete sobre como as cidades são manifestações físicas das nossas mais profundas crenças e, consequentemente, de valores coletivos inconscientes. Segundo ele, basta observar o que criamos para entender nossa visão de mundo. Isso fica claro quando notamos que, em uma cidade onde a maioria dos deslocamentos poderiam ser feitos de bicicleta, as pessoas preferem andar em carros por uma questão de status. Ou nas infindáveis aberturas ou aumento de vias asfaltadas que, em pouquíssimo tempo, estarão obsoletas. Também podemos ver como casas, lojas, museus, praças, templos, fábricas, parques e edifícios de escritórios são construídos e se relacionam ou não, traduzindo como vivemos.

Plano de uma cidade
Plano de uma cidade

Talvez por essa diversidade, cada capítulo tenha como foco maior um tema específico. Em lugares como Buenos Aires, Istambul, São Francisco e Londres, o autor trata de encontros com outros músicos e artistas. A política ganha destaque em cidades como Berlim e Manila. Já os textos de Nova York e cidades americanas que se apresentam como parques industriais suburbanos e ruínas contemporâneas como Detroit, Pittsburgh e Columbus, trazem uma perspectiva histórica da paisagem urbana. Isso não quer dizer que sejam temas fechados. De fato, David Byrne compartilha seus pensamentos sobre moda, arquitetura, isolamento cultural, globalização, comportamento, gastronomia e outros assuntos. As peças desse quebra-cabeças são coladas pelo fato de serem reflexões feitas enquanto pedalava.

Ciclovia protegida do trânsito de carros
Ciclovia protegida do trânsito de carros

Lendo Diários de bicicleta, eu acabei também pensando bastante na minha relação com a cidade onde moro e no que já vi pelo mundo afora. Durante as minhas viagens, pude explorar destinos de diferentes formas. Em algumas, fazia caminhadas para cima e para baixo. Em outras, pude fazer passeios completos de bicicleta, me sentindo seguro durante todo o trajeto. Percorri muitas distâncias em soluções eficientes de transporte público. Me vi obrigado a alugar um carro. Naturalmente, algumas cidades são mais convidativas aos ciclistas que outras. A geografia local e o clima fazem diferença, mas o livro nos faz refletir sobre muitas outras questões que, inclusive, extrapolam o simples uso de bicicletas como meio de transporte diário.

Projeto de parque sobre viaduto
Projeto de parque sobre viaduto

As cidades deveriam ser pensadas para serem usufruídas no cotidiano, não como um lugar para ganhar o dinheiro suficiente que te possibilite fugir para um lugar mais tranquilo durante as férias. Por isso, é importante investir no plantio de arvores e abertura de parques, programas de compartilhamento de bicicletas, criação de ciclovias (muitas vezes motoristas de carro são contra), diminuição da poluição, melhorias no transporte público, mais espaço para os pedestres e ampliação da qualidade de vida de uma forma geral. Tudo isso resulta em bem-estar, aumento da produtividade, prosperidade e saúde física e mental.

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Desde o lançamento do livro, algumas cidades passaram por grandes transformações no sentido de se tornarem mais sustentáveis. Outras tem tido uma evolução mais lenta – onde eu moro, por exemplo, tenho visto a abertura gradual de ciclovias, mas ainda há um longo caminho a percorrer para que as pessoas se sintam incentivadas a adotar as bicicletas como meio de transporte. Dito isso, acredito que o livro não tenha ficado desatualizado e as reflexões que propõe são ainda mais importantes em tempos atuais. Vale muito a pena a leitura.

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