O farol

O farol ★★★★★

Título original: The lighthouse
Ano:
2020
Direção: Robert Eggers
Elenco: Willem Dafoe, Robert Pattinson e Valeriia Karaman.

Algumas obras conseguem dividir bastante a opinião do público e, pelo que eu li de comentários na internet, temos aqui um caso de amor e ódio. Entre os insatisfeitos, a maior reclamação foi não ter entendido absolutamente nada da história, seja porque acharam confuso ou muito aberto a interpretações. Eu acho possível assistir ao filme como uma fonte mais de sensações do que de uma compreensão clara, um recurso amplamente usado nas artes. Mas também é possível interpretá-lo e entendê-lo, ainda que exista margem para que cada espectador tire as suas próprias conclusões.

Isolamento na ilha
Isolamento na ilha

O farol é um filme horror psicológico que mostra dois faroleiros em uma ilha remota que começam a perder a sanidade após ficarem isolados devido a uma tempestade. Se passando no início do século XX, a trama é filmada em preto e branco e quadrado, o que combina com a época retratada e também com o tema – em vários momentos, o contraste e os enquadramentos me lembraram o cinema expressionista alemão. O espaço limitado da imagem na tela também potencializa a sensação claustrofóbica proposta pelo roteiro.

Estrutura toda criada para o filme
Estrutura toda criada para o filme

As gravações aconteceram em Halifax e em Cape Forchu, ambas na província marítima de Nova Escócia, ao leste do Canadá. O farol existente no cabo da pequena comunidade pesqueira, entretanto, tem um visual que não combinava nada com a proposta do filme, então eles criaram uma estrutura replicando um estilo antigo. Infelizmente, essa construção e a casa acabaram desmontadas tão logo concluídas as filmagens.

Dividindo a casa com um estranho
Dividindo a casa com um estranho

Dessa vez eu vou dar todos os spoilers possíveis, então não continue a leitura caso você ainda não tenha assistido ao filme. Vamos começar com os fatos: Thomas (Willem Dafoe) e Ephraim (Robert Pattinson) são dois zeladores que chegam a uma ilha remota para cuidar do farol por um mês. Thomas é mais velho e possui uma perna falsa, enquanto Ephraim é o novato que veio substituir um funcionário que enlouqueceu. Enquanto o primeiro fica responsável por cuidar da luz no topo da torre, o segundo acaba com todo o trabalho físico e pesado come carregar pedras e limpar o chão. O conflito entre as duas personalidades obrigadas a dividir um pequeno espaço se intensifica após o mais novo matar uma gaivota, crime considerado hediondo pelo supersticioso idoso, que acredita que as aves carregam as almas de marinheiros perdidos. Quando uma tempestade impede a chegada do barco que os levaria de volta ao continente, a tensão entre os dois aumenta, com brigas, descobertas e acusações.

Thomas
Thomas

Uma das revelações importantes da trama é que Thomas possui um diário de bordo cheio de críticas com relação ao trabalho do ajudante, inclusive recomendando que o seu pagamento seja retido. Ele também provoca constantemente o companheiro, parecendo querer levá-lo intencionalmente à loucura. Teria ele feito o mesmo com o funcionário anterior para ficar com mais dinheiro? Se esse for o plano, parece que vai dar certo.

Ephraim
Ephraim

Ephraim passa a ficar paranoico após uma noite de bebedeira, quando confessa ter tido um acidente em um trabalho anterior que matou um colega, de quem ele rouba a identidade. De fato, me parece que o filme sugere mais um assassinato. Seja como for, a culpa pelo acontecimento ainda o perturba profundamente, aparecendo em um pesadelo em que ele afoga embaixo de diversos troncos e em flashes em que vê um homem morto. Além disso, talvez ele tenha procurado o trabalho nessa ilha justamente por estar fugindo.

Brigas intensas
Brigas intensas

Mas ele perde de vez a cabeça após o início da tempestade, permitindo ao público imaginar que tudo o que acontece depois do isolamento se passa na sua cabeça. Ficar preso em uma ilha com uma companhia conflituosa e mal tempo constante, além do risco de ficar sem alimentos e outros problemas trazidos pelo isolamento, é o suficiente para deixar uma pessoa louca. Também entra na equação a obsessão do personagem em conseguir acesso ao farol, o que vinha lhe sendo negado pelo homem mais velho. Fato é que as brigas se tornam tão intensas que Ephraim mata Thomas, sobe ao farol, enxerga algo incrível que nunca descobriremos o que é na luz e, finalmente, cai para a sua própria morte.

Prometheus sendo punido
Prometheus sendo punido

Nessa na sequência final, ficam óbvias as referências à mitologia grega. Criador do homem a partir do barro, Prometheus roubou o fogo de Zeus e o presenteou à humanidade, lhe dando o conhecimento. Como punição, ficou preso a uma rocha e passou a ter seus órgãos diariamente comidos por uma águia. A tortura era eterna devido à sua natureza imortal, representando Ephraim e sua culpa pelos fatos passados.

Proteus, o velho do mar
Proteus, o velho do mar

Proteus era um idoso profeta que servia a Poseidon, muitas vezes chamado de “o velho do mar” e conhecedor das criaturas, embora não gostasse de compartilhar seu conhecimento. Thomas é o arquétipo perfeito para essa figura. Além de fazer uma previsão precisa de como o seu companheiro morreria ao final do filme, ele aparece coberto de crustáceos e parece controlar uma criatura com tentáculos gigantes.

O farol como símbolo fálico
O farol como símbolo fálico

Também é preciso falar do simbolismo do farol, um objeto fálico claramente descrito no roteiro como um “pênis ereto”. Não há como negar a tensão sexual existente entre os dois personagens, que chegam a quase se beijar em determinado momento. Ao ser obrigado a fazer todas as tarefas consideradas como femininas da casa, como cozinhar e limpar, Ephraim afirma que não estava lá para ser a esposa de ninguém. Enquanto isso, Thomas é o único que tem acesso à luz, algo que lhe confere superioridade. Ou seja, mais que um interesse sexual, a relação entre os dois é uma briga pelo poder, quem domina e quem é submisso.

Personalidades conflitantes
Personalidades conflitantes

Uma outra interpretação possível é que ambos sejam a mesma pessoa, ou seja, representem um conflito interno. Essa abordagem é suportada pelo fato dos dois terem personalidades tão distintas, como dois extremos da mente. Enquanto Ephraim tenta conter suas emoções com muito esforço, Thomas parece o empurrar para o precipício, fazendo com que ele se entregue à loucura. Nesse caso, ele mesmo sabotaria o único barco que poderia ser usado para sair da ilha e, posteriormente, se mataria. Do ponto de vista psicológico, um representaria o ego, consciente das normas sociais e lutando para manter a civilidade, enquanto o outro seria o id, cedendo a todos os seus desejos. Além disso, em determinado momento descobrimos que o nome verdadeiro de Ephraim também é Thomas. Ou seja, no fim das contas, Thomas mata Thomas.

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