Documentário sobre processo contra o banco Abacus

Abacus: Pequeno o bastante para condenar ★★★★☆

Título Original: Abacus: Small enough to jail
Ano: 
2016
Direção:
 Steve James

Para entender um pouco melhor a situação apresentada nesse documentário, é necessário contextualizar, ainda que bem resumidamente, a crise financeira por que passava os Estados Unidos. A raiz do problema está nos anos 1990, quando muitos americanos fizeram empréstimos bancários e hipotecas, principalmente para comprar imóveis. Na década seguinte, com o esgotamento de clientes tradicionais, os bancos passaram a emprestar dinheiro e aprovar outros serviços para indivíduos e famílias sem histórico de crédito, com precedentes ruins, sem emprego e sem renda. Como não tinham como pagar, esses clientes faziam um empréstimo ainda maior para honrar o anterior. Posteriormente, essas dívidas de alto risco foram juntadas e disponibilizadas como investimento no mercado internacional, alastrando a crise para os principais bancos do mundo e aumentando o efeito bola de neve. No meio de 2007, quando a situação já estava insustentável, a crise estourou e chegou ao auge no ano seguinte.

Abacus Federal Savings Bank
Abacus Federal Savings Bank

Para ofertar esses empréstimos, os bancos muitas vezes ignoravam os fatores de risco, sabendo que a maioria dos clientes não conseguiriam honrar suas dívidas – ou talvez contando justamente com isso para lucrar mais. Então, usavam informações falsas e outros recursos fraudulentos como, por exemplo, colocar na análise de perfil do cliente uma profissão que ele não tinha de fato, um salário mais alto, usar o nome de um terceiro, fazer contratos problemáticos e por aí vai. Um deles foi o Abacus Federal Saving Banks, um pequeno banco familiar com sede na Chinatown de Manhattan, na cidade de Nova York.

Anúncio da abertura do processo
Anúncio da abertura do processo

Acontece que, de todas as instituições financeiras envolvidas em diversos escândalos da chamada bolha imobiliária, que explodiu devido à crise dessas hipotecas concedidas a juros altos, o Abacus foi o único levado à justiça. Enquanto grandes bancos, com um número de negócios bem mais expressivos e de alcances globais, foram totalmente poupados, o governo americano foi atrás justamente de um empreendimento local com direito a um grande espetáculo na mídia, querendo passar a ideia de que estariam punindo os responsáveis de maneira incisiva.

Jornal noticiando a denúncia
Jornal noticiando a denúncia

Acontece que o tiro saiu pela culatra justamente devido à repercussão do caso, já que as pessoas não demoraram a perceber que se tratava de uma caça às bruxas para “mostrar serviço”. Um dos pontos muito discutidos foi a foto de funcionários sendo presos amarrados uns aos outros, como animais levados para o abate. Contribuiu para a polêmica o fato se tratarem de imigrantes chineses, muitas vezes vistos como uma sociedade à parte em solo americano e que certamente sofrem com o preconceito e a xenofobia. O caso foi inclusive retratado no livro The divide, escrito por Matt Taibbi, que mostra como o 1% mais rico da população se mantém impune às leis, protegidos pela sua classe e pelo sistema, por maiores e mais ultrajantes que sejam os seus crimes, enquanto a parte maior e mais pobre da população é perseguida e condenada.

Chinatown de Nova York
Chinatown de Nova York

Em maio de 2012, procuradores de Nova York indiciaram o banco e dezenove de seus funcionários por fraude em relação a empréstimos de centenas de milhares de dólares, incluindo a falsificação de documentos para que os clientes pudessem ter acesso aos serviços. O documentário não nega a existência das irregularidades e trata bastante das características sociais da comunidade chinesa, cujas lojas e restaurantes muitas vezes atuam com cobranças somente em dinheiro para evitar a cobrança de impostos, empréstimos feitos de pais para filhos de maneira informal e a diferença entre o nome real e o adotado socialmente. O irônico é que a taxa de inadimplência dos clientes do Abacus é de 0.5%, dez vezes menor do que a média no resto do país. Ou seja, embora juridicamente errados, esses contratantes não tinham a intenção de não pagar suas dívidas e podem ter sido vítimas de desentendimentos ou conscientes do famoso “jeitinho brasileiro americano chinês”.

Thomas Sung, dono do banco Abacus
Thomas Sung, dono do banco Abacus

Contando com depoimentos de diversas pessoas envolvidas no caso como a acusação, a defesa, pessoas da comunidade e, principalmente os réus, incluindo os componentes da família Sung, proprietária do banco, o documentário consegue traçar uma ótima perspectiva não apenas do caso em questão, mas também do sistema de justiça americano, da comunidade chinesa, do funcionamento dos bancos, da crise financeira e de outros aspectos relevantes. O resultado é um filme bastante informativo, que traduz para uma linguagem simples temas complexos.

Gravação em áudio de depoimento
Gravação em áudio de depoimento

Embora a narrativa dê espaço para os argumentos de ambos os lados da história, fica claro para o espectador que a intenção era mesmo mostrar a facilidade em punir pequenas empresas, deixando de lado e livres os maiores criminosos. Não chega a ser um problema, já que isso acontece de fato e são usados diversos áudios e vídeos para mostrar o desenrolar de todo o processo, desde o início até a sua conclusão. De qualquer maneira, fica aquela vontade de que o tema fosse tratado de maneira um pouco mais isenta, sem forçar a barra para nos convencer sobre a inocência da família.

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