Absorvendo o tabu

Absorvendo o tabu ★★★★☆

Título original: Period. End of sentence.
Ano: 2018
Direção: Rayka Zehtabchi

Muitas pessoas vêem o Oscar como uma premiação de gosto duvidoso devido à seleção comercial das obras, em sua maioria americanas. Realmente, não dá para encarar o evento como uma referência do que há de melhor no mundo. Mas os filmes são, em grande parte, realmente de boa qualidade. Além disso, é uma oportunidade de descobrir novos talentos e assuntos interessantes, principalmente nas categorias tidas como mais alternativas. Foi o caso desse curta em documentário que saiu vencedor.

A falta de informação é um dos problemas
A falta de informação é um dos problemas

Absorvendo o tabu trata da polêmica da menstruação para a população indiana. Em inglês, o título pode ser lido tanto como “ponto final. o fim da frase” quanto como “menstruação. fim da punição”. O nome em português e em inglês são ambos adequados, visto que esse evento natural e constante na vida de todas as mulheres é como um tabu e uma punição, com apenas 10% da população do país tendo acesso a produtos para higiene pessoal. E se engana quem pensa que isso acontece apenas por limitações financeiras. A falta de informação é um dos fatores. Em determinado momento, por exemplo, uma senhora explica as regras simplesmente como um “sangue ruim”, já que não tem acesso a uma explicação científica.

A religião reforça a condição da mulher na sociedade
A religião reforça a condição da mulher na sociedade

Essa ideia é reforçada pela sociedade, que proíbe que mulheres visitem os templos religiosos nos dias em que estão sangrando. Elas são ensinadas que se trata de um momento de impureza. A falta de acesso a absorventes também gera outros problemas, como crianças tendo que abandonar escolas. Na vida adulta, elas continuam a se esconder em casa durante o período menstrual, já que correm o risco de ter suas roupas manchadas vistas pelas pessoas nas ruas. A vergonha é tanta que as mulheres da comunidade rural de Hapur, que é retratada no filme, precisam sair a noite para enterrar os panos que usam para se limpar. E nem estamos falando de um lugar isolado, já que a cidade fica a apenas 60 km da capital Nova Deli.

Os meninos não tem noção de nada
Os meninos não tem noção de nada

Os homens, jovens ou mais velhos, tampouco tem ideia do que que acontece com o corpo das mulheres. Todos sabem que o sangramento acontece, é claro. Mas o fato é visto como uma doença, não sendo explicado e discutido como algo natural. É importante lembrar que são justamente os homens que comandam a sociedade indiana, ainda muito presa a tradições antigas e patriarcais. Abandonando a escola a partir do momento em que começam a menstruar, as mulheres se limitam a servir seus maridos ou se dedicam a subempregos. O ciclo de desinformação se renova.

Meninas adolescentes ficam envergonhadas com o assunto
Meninas adolescentes ficam envergonhadas com o assunto

Aliás, o assunto é um tabu até mesmo entre a maior parte das mulheres. Isso pode ser visto claramente na dificuldade que elas têm de tratar o tema. Era de se imaginar que, nos dias de hoje, com a globalização e a democratização do acesso à internet, isso poderia ser resolvido pelo menos em nível pessoal. Afinal, é esse o nosso recurso quando queremos pesquisar sobre algo que não temos coragem de perguntar a outras pessoas. Claramente, temos uma ideia muito errada sobre a disponibilidade da tecnologia. Até mesmo no Brasil, dados do IBGE apontam que cerca de 60% da população tinham acesso à rede em 2018. Nas famílias e entre amigos, falar sobre a sexualidade também continua sendo complicado. Imagina na Índia, um país bem mais focado em tradições…

Trabalho tornará mulheres independentes
Trabalho tornará mulheres independentes

É aí que entra o trabalho social realizado por Arunachalam Muruganantham, um indiano que criou máquinas para a fabricação de um absorvente barato e eficiente, embora de aparência bastante rudimentar. A produção, realizada pelas próprias mulheres das comunidades rurais, incentiva o uso e a conscientização, além de permitir que elas deixem trabalhos manuais para se tornarem empreendedoras e conquistarem independência financeira. É uma coisa simples, mas com potencial de trazer mudanças profundas tanto em nível individual quanto para a sociedade como um todo. O filme documentário está disponível no Netflix.

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4 comentários

  1. Fiquei bem interessado em assistir. É muito interessante a perspectiva de uma outra cultura diante de um assunto que para nós é tão comum.
    Excelente post.
    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Esse documentário é incrível. Apesar de curto, mostra um panorama desse “contexto” no país e, como você disse, esclarece algumas questões. Nós gostamos bastante.

    Curtido por 1 pessoa

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