Mapa da linha férrea

Jungfraujoch – Como foi construída a ferrovia no topo da Europa

O grande atrativo dessa subida pelos Alpes Suíços é, sem dúvida alguma, a vista monumental que o passeio proporciona das vilas aos pés das montanhas e dos picos nevados. É impossível, entretanto, não ficar impressionado com os trabalhos que proporcionaram chegar até lá em cima de trem, principalmente quando a gente lembra o quanto custa e demora fazer um “simples” viaduto no Brasil nos dias de hoje. Durante o passeio pelo topo da Europa, é possível ver algumas fotos e informações sobre a construção da ferrovia. Mas a gente acaba passando por alto, sem ler tudo, então achei interessante fazer uma postagem sobre o tema.

Os montes Eiger, Mönch e Jungfrau há muito fascinavam poetas, pintores e escritores, em uma época em que as subidas ainda eram feitas apenas através de trilhas. Eu fiz uma postagem especificamente para falar sobre o trajeto que é feito atualmente, já que as opções e nomes estranhos podem causar uma certa confusão em quem ainda não conhece a região e está pesquisando para fazer o passeio. Também ajuda bastante dar uma estudada no mapa.

Mas vamos à história. Friedrich Seiler, um incansável empresário do ramo hoteleiro e político dos transportes de Interlaken, planejava, já em 1869, levar um trem pneumático de Lauterbrunnen até Rottal, aos pés do Jungfrau. A partir daquele ponto, uma trilha levaria até o pico do monte. Cerca de 20 anos depois, três projetos partindo de Lauterbrunnen foram lançados. O engenheiro Maurice Koechlin queria fazer uma ferrovia escalonada com cinco sessões e um hotel de pedra. Seu colega de Aargau, Alexander Trautweiler, sugeria quatro teleféricos independentes percorrendo túneis. Já Eduard Locher, nativo de Zurique, pretendia que o transporte fosse feito por veículos com 20 metros de comprimento em duas sessões de túneis retas diretamente para o pico. Nenhum dessas ideias foi implementada.

Adolf Guyer-Zeller
Adolf Guyer-Zeller

O desejo de criar uma linha de ferro na área se tornaria realidade no final do século XIX, quando houve uma febre de construções desse tipo na Suíça. Em 1893, Adolf Guyer-Zeller, um empreendedor suíço de 54 anos de idade, estava fazendo uma caminhada pelos montes com a sua filha quando observou o novo trem que fazia a viagem até a estação de Kleine Scheidegg. Esse foi o momento em que ele tomou a decisão de construir uma extensão da linha até o Jungfrau. A diferença dos projetos anteriores é que a viagem não partiria de Lauterbrunnen, mas sim daquela estação já existente, a 2064 metros acima do nível do mar. Na mesma noite, no quarto do hotel onde estava hospedado, ele traçou um esboço da futura Jungfrau Rainway em um pedaço de papel.

Esboço do projeto
Esboço do projeto

Apenas quatro meses depois desses eventos, Guyer-Zeller submeteu um pedido de licença para o Conselho Federal. Desde o princípio, a Jungfrau Railway foi planejada como uma ferrovia operada eletricamente, com uma rota inicial ao ar livre e depois por um túnel na geleira do Eiger. A estrada passaria por três estações, cada uma com uma vista particular. Fica claro que, além de um visionário, Guyer-Zeller era também um inteligente homem de negócios, fazendo com que cada parada se tornasse um ponto turístico e permitisse a construção por etapas. Para o último trecho, do final da ferrovia até o pico com Junfgrau, planejou-se um elevador com 100 metros de comprimento. No final de 1894, o empreendedor recebeu a licença da construção e se comprometeu a ajudar a financiar um observatório no local.

Trabalho manual de imigrantes italianos
Trabalho manual de imigrantes italianos

No meio de 1896, foi dado início ao trabalho de construção do trecho entre Kleine Scheidegg e o monte Eiger. Ali não eram usadas máquinas, mas sim o trabalho braçal com pás e picaretas, principalmente de italianos. Outra dificuldade é que a ferrovia a vapor que ia até Kleine Scheidegg não funcionava durante o inverno, o que comprometa o fornecimento de mantimentos. A solução foi manter uma matilha de huskies siberianos, que faziam a ligação entre Wengen e o canteiro de obras.

Primeira estação da ferrovia
Primeira estação da ferrovia

Além da construção da ferrovia em si, também foi necessário garantir o fornecimento de energia para o seu funcionamento. Para isso, foram construídas usinas elétricas em Lauterbrunnen e Burglauenen, perto de Grindelwald.

Depois de dois anos, essa primeira da rota foi concluída e entrou em operação. O empresário convidou 450 pessoas selecionadas para uma grande cerimônia de abertura com um festival preparado especialmente para a ocasião. A ideia não era apenas comemorar essa etapa, entretanto. Guyer-Zeller precisava de investidores e conseguiu chamar a atenção e convencer as pessoas a apostarem no negócio.

Abertura do túnel
Abertura do túnel

A partir daí, deu-se início à abertura de um túnel dentro da montanha. Para isso, foi criado uma vila operária com restaurante, loja de mantimentos, estoque para o inverno de até oito meses, quatro moradias iluminadas e aquecidas, oficinas, casa de máquinas, estação de transformação de energia, armazenamento de pólvora e uma enfermaria. Nos meses frios, a água era obtida da neve.

Os trabalhos perderam força, entretanto, com a morte de Guyer-Zeller em abril de 1899 e as dificuldades financeiras de levar o projeto adiante. A segunda estação, que tinha obras previstas para um ano, só foi inaugurada em 1903.

Perfuração das rochas
Perfuração das rochas

Depois da abertura da estação de Eismeer, a situação ficou ainda mais difícil para a construção da Jungfrau Railway. Além da falta de dinheiro, a nova gerência realizou mudanças nos projetos originais. Em vez de chegar até o pico, o plano passou a ser uma estação a 3454 metros acima do nível do mar – a Jungfraujoch, localizada no planalto entre os montes Junfgrau e Mönch. Outros problemas foram a dureza das rochas, mais resistentes que o esperado, a prioridade do uso do transporte por passageiros durante o verão e a falta de água no inverno. Sem contar as condições físicas e emocionais dos trabalhadores, o que levou a conflitos, greves, mudanças constantes na equipe de chefia e a morte de 30 pessoas, a maioria por acidentes nas explosões.

Foto no topo do monte
Foto no topo do monte

Apesar de todas as adversidades, a luz no fim do túnel foi alcançada em fevereiro de 1912 – literalmente. Apenas cinco meses depois, totalizando 16 anos de construção, o primeiro trem com turistas fez o trajeto completo. Na época da inauguração, o tempo era de 1h15. Atualmente, essa subida de 1400 metros é percorrida em apenas 35 minutos. Entre as atrações do passeio, estão os observatórios, uma grande área para a prática de atividades na neve, o maior palácio de gelo dos alpes, quatro restaurantes e dois bares, trilhas pela montanha e exposições.

 

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