A estrutura verde entre as duas torres

Genebra – História da Cathédrale Saint-Pierre

A Catedral de São Pedro está intimamente ligada com a história da cidade, visto a importância da religião na vida social e política. No século IV d.C., Genebra tornou-se sede de um bispado, tendo seu primeiro edifício cristão construído entre os anos de 350 e 375, nas ruínas de um santuário romano. A Catedral Norte, como ficou conhecida, tinha 32 metros de comprimento e 15 metros de altura. Como foi erguida sobre as fundações de um amplo edifício residencial, cujo eixo não estava em ângulos retos, acabou tendo um leve viés. Havia apenas uma entrada lateral, feita por um corredor, e tanto a nave quanto a capela-mor possuíam barreiras com o objetivo de separar os frequentadores da alta sociedade dos demais.

Em 390, duplicou a estrutura com a construção de um segundo batistério e um átrio, a Catedral Sul. O batismo foi deslocado para garantir um melhor layout. Entre os três prédios, um átrio permitia circular de uma catedral para a outra. Esta nova catedral foi construída como igreja secundária e destinada à educação religiosa e à leitura de textos sagrados. Apesar de ter o mesmo tamanho da primeira, sua arquitetura parecia mais polida. De comum tinha a divisão do espaço, delimitando duas classes de fiéis. O acesso à capela-mor pelos leigos era completamente proibido e estava separado por uma parede.

Com incêndios e destruições causadas por conflitos, além da deterioração natural, a estrutura seria constantemente renovada e até expandida nos séculos posteriores, inclusive com a construção de uma terceira parte, chamada “catedral oriental”. Posteriormente, as três igrejas se juntaram em uma única.

Comunas de São Pedro
Comunas de São Pedro | Gustave Henri Bouthillier de Beaumont

Na Idade Média, o catolicismo era a principal religião da Europa e controlava de perto a política. O século XI foi marcado pelo intenso fervor cristão que acompanhava as Cruzadas, o que também envolveu Genebra. Sob a liderança do príncipe-bispo da cidade, Arducius de Faucigny, a população participava da construção da nova catedral, em 1158. Embora súditos do imperador, os cidadãos desejavam ganhar alguma independência e ter um corpo municipal. Em 1288, eles fundaram a irmandade de Saint-Pierre e tornaram a catedral a sua fortaleza, sendo expulsos anos depois. Em 1309, graças ao apoio do Conde de Savoie, os genebrinos obtêm do bispo o reconhecimento legal da comuna. Mas o século XIV também traz sua cota de calamidades, com sucessivos incêndios em sua estrutura e epidemias da peste.

Chapelle des Macchabées
Chapelle des Macchabées

Como ponto central da cidade, a Catedral de São Pedro funcionava como sede do Conselho Geral, no qual os cidadãos se reuniam para eleger os quatro curadores que formavam o governo local. Até a Reforma Protestante, a catedral e o claustro também eram usados para enterros, cujo local era definido pelo status social e o pagamento de taxas, além de grandes cerimônias festivas e solenes. Em 1406, foi construída a bela Chapelle des Macchabées pelo Cardeal de Brogny para abrigar sua tumba e de sua família. O nome “Macabeus” provavelmente se refere aos sete mártires hebreus.

Outra aquisição importante é o grande sino chamado Le Clemence, doado por Guillaume de Lornay, que, instalado na torre norte, teve grande papel na história religiosa e política de Genebra. O toque era usado para chamar os fiéis para a oração, louvar a Deus, proteger a cidade, convocar o Conselho Geral e expulsar os demônios.

Salle du Guet na torre sul
Salle du Guet na torre sul

O século XVI anuncia uma grande reviravolta em Genebra. Embora a população possa ser considerada seguidora da religião católica, os cidadãos possuem uma mente crítica e bom nível de educação para a época. Politicamente, buscam a independência e se voltam para os vizinhos suíços em busca de apoio. Em 1526, em aliança com Bern e Fribourg, o Conselho Geral proíbe a entrada do Duque de Savoie na cidade, até então recebido com pompa durante suas visitas. As fortificações são consertadas e vigias instalados nas torres da catedral. Em 1535, acontece a última missa católica da catedral, que termina em motim com os fiéis perseguindo os sacerdotes e colocando abaixo as estátuas e outros objetos de idolatria, seguindo as ideias de Lutero.

Antes da adoção da Reforma Protestante, as paredes da catedral eram pintadas com cores brilhantes, adornadas com ricas tapeçarias, cálices, castiçais, pinturas, imagens sagradas, etc. Os iconoclastas destroem os altares e as decorações, os órgãos são quebrados. As janelas do coro e elementos da parede e do púlpito não são afetados. O retábulo de Konrad Witz foi desmontado e alguns painéis sobrevivem, atualmente podendo ser vistos no Musée d’Art et d’Historie de Genève.

La Pêche Miraculeuse
La Pêche Miraculeuse | Conrad Witz

Em 1536, Guillaume Farel, evangélico francês, trouxe para a cidade Jean Calvin, na época refugiado em Basileia. A marcante austeridade que os dois homens querem impor à cidade provoca oposição e eles acabam expulsos.  Em 1541, Calvin volta a Genebra a pedido do Conselho Geral. Ele irá, gradualmente, impor suas regras, reprimindo severamente quaisquer diferenças religiosas ou morais. Magistrados e cidadãos são forçados a se submeter à Confissão de Fé estabelecida por ele, sob pena de serem banidos da cidade. Bancos são instalados na igreja, bem como baús para a oferta dos pobres. Em 1543, o púlpito é colocado em sua localização atual. Os órgãos são derretidos e transformados em vasos e copos para a comunhão. De fato, Calvin julga que os instrumentos musicais servem apenas para embelezar e, assim, distorcer a canção de louvor, que deve permanecer simples e pura. João Calvino, como é conhecido no Brasil, foi o responsável pelo surgimento do chamado calvinismo, um sistema teológico bíblico com raízes na Reforma Protestante. Em 1559, o líder religioso inaugura a Académie de Genève, que incluía educação básica e faculdade, oferecendo cursos de letras, línguas bíblicas, teologia e direito.

Parte interna e órgão principal
Parte interna e órgão principal

O século XVIII é marcado pela Revolução Francesa, que trouxe a queda da organização social tradicional, dos seus valores, das estruturas políticas e até da religião. Nessa época, a catedral se torna principalmente um lugar de cerimônias seculares e local para votações. Após oito anos, a catedral volta a realizar cultos. Genebra passa a fazer parte da Suíça em 1815, mas os conflitos entre católicos e protestantes continuam por algum tempo.

A partir do final do século XIX, várias reformas foram realizadas na estrutura física da igreja, atualmente muito bem conservada. Os trabalhos mais recentes se deram na década de 1970, quando a catedral ficou fechada por quatro anos em um grande projeto de renovação e, posteriormente, descobertas arqueológicas. Mantendo-se a principal igreja protestante da cidade, hoje abriga celebrações religiosas e ecumênicas de toda a cristandade, além de eventos, comemorações patrióticas e cívicas que marcaram a história da república, espetáculos dramáticos, apresentações musicais e tornou-se um dos pontos turísticos mais procurados da região.

Lac Léman visto da torre norte
Lac Léman visto da torre norte

O passeio pela catedral é obrigatório para quem visita o centro histórico da cidade. Além de ser um local intimamente ligado à história de Genebra e da religião, a subida às torres proporciona ótimas vistas panorâmicas.

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