A guerra não tem rosto de mulher

A guerra não tem rosto de mulher ★★★★☆

Título original: U voyny ne zhenskoe litso
Ano:
2009
Autora: Svetlana Aleksiévitch

Não passa um ano sequer sem que a gente veja um filme sobre guerra. Seja retratando conflitos mais atuais ou de eventos passados, via de regra, a história é contata não apenas pela perspectiva dos homens, mas com personagens masculinos. Mesmo esses muitas vezes são tratados de maneira maniqueísta: vilão ou herói. Até os livros que estudamos na escola ou de literatura têm esse viés, com os acontecimentos mais importantes sempre atrelados à figura masculina.

Svetlana Aleksiévitch
Svetlana Aleksiévitch

Svetlana Aleksiévitch, vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2015, nasceu em Stanislav (hoje Ivano-Frankivsl), na Ucrânia, poucos anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1948, mas cresceu na Bielorrússia. Formada em jornalismo, iniciou trabalhos de pesquisa que resultaram em livros que ficam a meio caminho entre a literatura e o relato de fatos reais, usando uma técnica de colagem que justapõe testemunhos individuais com o objetivo de se aproximar mais da substância humana dos acontecimentos. A partir de uma série de entrevistas com mulheres russas que participaram da Segunda Guerra Mundial, compôs o seu primeiro livro nesse estilo: A guerra não tem rosto de mulher. Outras obras dela lançados no Brasil são O fim do homem soviético e Vozes de Tchernóbil, todos à venda na Amazon.com.

A guerra não tem rosto de mulher

A guerra não tem rosto de mulher busca preencher essa carência de relatos femininos na literatura sobre o tema. Quando pensamos em uma mulher na guerra, nos vem a imagem de alguém que trabalha como enfermeira ou na comunicação. O livro nos mostra que elas lutaram em todos os cargos. Havia, sim, cozinheiras, lavadeiras, enfermeiras e médicas e seu papel foi importante para a luta. Mas também estavam na linha de frente como atiradoras, tanquistas, motoristas, mecânicas, pilotos, comandantes, membros da resistência, desarmadoras de minas e outros. Geralmente, os relatos de guerra buscam enaltecer a nobreza da luta e a glória da vitória. O que ela buscava eram os olhares particulares que passam pela luta, sangue e morte, mas que não se esquecem do medo, solidão, irmandade, empatia e compaixão.

Militares passando por plantação
Militares passando por plantação

A questão é ainda um tabu. A autora encontrou muitas dificuldades durante seus trabalhos de pesquisa. A voz das mulheres, mesmo décadas após os conflitos, era calada pelo governo, pelos homens e por elas mesmas. Os homens que voltavam feridos da guerra, eram considerados heróis. Já as mulheres viveram várias lutas: ir para a guerra foi apenas a primeira delas, pois eram tratadas com preconceito, descrença e desrespeito, além de ter que adotar um corte de cabelo curto e usar roupas masculinas. Ao voltar, vitoriosas, haviam perdido tudo: casa, pais, marido e filhos. Muitas escondiam as suas cicatrizes e medalhas, na tentativa de estabelecer uma vida considerada normal. Em determinado trecho do livro, podemos perceber que consideravam e ainda consideram como verdadeiras mulheres aquelas que ficaram cuidando da casa, esperando a improvável volta de seus maridos. Muitas daquelas que foram para a luta, foram vistas como mães desnaturadas que abandonaram seus filhos, putas que iam transar com homens casados durante as guerras e outras atrocidades. Não é à toa que suas vozes tenham ficado tanto tempo caladas.

Franco-atiradora russa na Segunda Guerra Mundial
Franco-atiradora russa na Segunda Guerra Mundial

Muitos homens morreram nos primeiros meses da guerra e é possível que não tivesse havido vitória sem a participação efetiva de cerca de um milhão de mulheres russas. Mas, mais do que conhecer e reconhecer o papel que as mulheres tiveram nesse conflito em específico, o relato nos permite aprofundar em questões que ficam em segundo plano quando se trata do assunto. O relacionamento entre as pessoas, os sentimentos, as situações práticas de vestimenta e alimentação, a dificuldade de comunicação entre os familiares, o sentimento de obrigação em defender a pátria, o reconhecimento de sua luta particular (ou a falta dele), a vida após a guerra e tantos outros.

Mulheres da resistência
Mulheres da resistência

Como se pode perceber por tudo que escrevi acima, achei o conteúdo do livro todo maravilhoso e relevante. O que não me agrada, entretanto, é a forma. A transcrição direta da fala das pessoas entrevistadas, ainda mais fragmentada em pequenos trechos, é pobre como recurso narrativo. Eu entendo que foi a decisão correta para garantir a veracidade dos relatos, sem romantização, o que se justifica pela formação jornalística da autora. Ainda assim, não me agrada. De certa forma, alguns trechos soam repetitivos, o que torna a leitura cansativa. De qualquer maneira, A guerra não tem rosto de mulher é uma obra extremamente relevante, triste, intensa e esclarecedora, tanto para os homens, quanto para as próprias mulheres.

A guerra não tem rosto de mulher

Não posso… Não quero lembrar. Passei três anos na guerra… E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita… Quando meu futuro marido me pediu em casamento… Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag… Ele disse: ‘A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo’. Eu queria chorar. Começar a gritar. Bater nele! Como assim casar? Agora? No meio de tudo isso — casar? No meio da fuligem preta, de tijolos pretos… Olhe para mim… Veja em que estado estou! Primeiro, faça de mim uma mulher: me dê flores, flerte comigo, diga palavras bonitas. Eu quero tanto isso! Esperei tanto! Por pouco não bati nele… Queria bater… Uma de suas bochechas estava queimada, vermelha, e eu vi que ele tinha entendido tudo: desciam lágrimas por essa bochecha. Pelas cicatrizes ainda recentes… E eu mesma não acreditei que estava dizendo: ‘Sim, eu me caso com você’.

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