Ícaro, filme documentário de 2017

Ícaro ★★★★☆

Título original: Icarus
Ano: 2017
Direção: Bryan Fogel
Elenco: Bryan Fogel, Grigory Rodchenkov

Na mitologia grega, Ícaro é filho de Dédalo e da escrava Perséfone. Dédalo era um talentoso artesão em Atenas, tendo sido o responsável pela construção de um labirinto para o Rei Minos de Creta, onde ficava aprisionado um minotauro. Posteriormente, o próprio Dédalo e seu filho foram presos pelo rei no labirinto. Com o objetivo de fugir do lugar, Dédalo produziu dois pares de asas feitos de cera do mel de abelhas e penas de gaivota. Após testar as asas, o pai alertou Ícaro que eles não poderiam voar muito perto do sol, pois o calor derreteria a cera, nem muito perto do mar, pois a umidade deixaria as penas úmidas e pesadas. Inebriado pela vertigem que o voo lhe proporcionou, Ícaro subiu ao céu, chegando muito perto do sol. Como alertado, a cera de suas asas se derreteram e ele perdeu as penas, o que ocasionou sua queda e morte no mar Egeu, mais propriamente na parte conhecida como mar Icário. O que pode se tirar de lição da lenda são os perigos e consequências da exagerada ambição pessoal, o que tem relação direta com esse documentário.

La caída de Ícaro
La caída de Ícaro | Peter Gowy, 1635-1367

O documentário parte da história de Lance Armstrong, ciclista americano profissional com um recorde de sete vitórias seguidas no Tour de France, entre 1999 e 2005, frequentemente citado por usar substâncias proibidas para melhorar seu desempenho físico. As acusações foram veementemente negadas pelo ciclista ao longo dos anos, inclusive em disputas judiciais. Depois de muitos escândalos, Armstrong foi considerado culpado pela United States Anti-Doping Agency (USADA) e, consequentemente, banido de todos os esportes. Suas conquistas a partir de agosto de 1998 foram retiradas e ele finalmente admitiu que as alegações eram verdadeiras.

Lance Armstrong
Lance Armstrong

Bryan Fogel, diretor do documentário e ciclista amador, começou as filmagens de Ícaro com o objetivo de analisar como seria possível burlar os testes antidoping em eventos profissionais. O impressionava o fato de uma pessoa como Lance Armstrong ter conseguido passar por tantos testes, durante anos, e nunca ser flagrado pelas análises clínicas. A ideia, segundo Fogel, era provar que o sistema de teste dos atletas eram besteira.

Bryan Fogel
Bryan Fogel

Na primeira parte do documentário, acompanhamos o diretor treinando para um determinado evento, colhendo amostras de urina e injetando drogas em seu próprio corpo sob orientação de um especialista russo, em um estilo que lembra o filme Super Size Me. Embora seja um pouco confusa, essa primeira parte é importante para mostrar como os atletas se submetem a tratamentos intensivos para alcançar seus objetivos.

Grigory Rodchenkov
Grigory Rodchenkov

O russo Grigory Rodchenkov, diretor responsável pelos esforços antidoping do seu país, é quem orientava o uso de drogas de Fogel, através de conversas pelo Skype. Em 2015, ainda durante as gravações do documentário, ele se torna alvo central de uma investigação internacional de fraude nos exames em eventos esportivos mundiais, como as Olimpíadas. A partir de então, acompanhamos a tensa trama do maior escândalo dos esportes já visto: o apoio do governo russo para o uso de substâncias proibidas pelos atletas de seu país, bem como o esquema de adulteração de exames antidoping, o que acarretaria o banimento de parte da delegação russa nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.

1984, livro escrito por George Orwell
1984, livro escrito por George Orwell

Não vou entrar em detalhes sobre os desdobramentos da divulgação da história na mídia, o posicionamento dos órgãos responsáveis e as consequências das acusações na vida de Grigory Rodchenkov para não atrapalhar a experiência de quem ainda não assistiu ao filme. O que posso dizer é que o diretor faz uma bela comparação dos atos do governo russo e dos outros elementos envolvidos com o fantástico livro 1984, de George Orwell, lançado em 1949, mas com conteúdo tão atual e devastador. Uma leitura obrigatória, principalmente nos dias de hoje.

1984, livro escrito por George Orwell

O uso do conteúdo do livro no filme não soa forçado. Grigory Rodchenkov afirma, em determinado momento, o ter lido quando estava na casa dos 30 anos. Antes, a obra era banida na Rússia. A história o teria chocado pelas passagens em que mostra o governo como responsável pela destruição da verdade, o que possui clara relação com a situação vivida em seu país e, mais especificamente, com o caso de doping dos atletas russos.

Grigory Rodchenkov e Bryan Fogel
Grigory Rodchenkov e Bryan Fogel

Mais de um retrato do caso dos esportes, o documentário é uma reflexão sobre o poder político de um país, a força da mídia e o caráter humano diante de situações extremas. O único defeito, para mim, é que se adote uma postura tão veemente contra a Rússia, citando várias vezes o nome de Vladimir Putin, por exemplo, mas deixe de reforçar que esse é, provavelmente, um problema sistêmico nas competições esportivas de grande parte dos países do mundo – ainda que não na mesma extensão. Por outro lado, os Estados Unidos aparecem como o país responsável por trazer justiça para o caso, o que, por si só, já pode ser entendido como uma propaganda política.

O documentário rendeu o primeiro Oscar para a plataforma de streaming de filmes, séries, desenhos animados e outras obras audiovisuais, Netflix.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s