Descendo a Estrada da Morte de bicicleta

La Paz – Descendo a Estrada da Morte de bicicleta

Além de fazer a reserva previamente, é preciso algum preparo para fazer esse passeio. Não estou falando de treinar na academia para aguentar o trampo, embora deva dizer que, apesar de a maior parte do trajeto ser de descida, é preciso fôlego para pedalar nos trechos de subida. Mas o que é realmente vou ressaltar é que alguns itens são essenciais para deixar o tour mais agradável.

Como passamos por uma variação muito grande de altitude, é preciso levar roupas adequadas para dois climas distintos: roupas de frio para o alto da montanha e roupas mais frescas para a parte da floresta. Além disso, é bom levar uma muda de roupa para vestir na volta, pois há trechos em que é preciso passar por pequenos cursos d’água e lama, então você pode achar todo sujo. A empresa indica até mesmo que se deva levar um par de sapatos extra. Como eu estava viajando só com um tênis, levei chinelo (o que foi ótimo para a parte do banho). Lembrando que a empresa fornece calça e jaqueta, então não precisa exagerar – elas protegem bem do frio e da sujeira.

Também é importante levar protetor solar, repelente e óculos de sol. Eles também indicam roupa de banho, pois tem uma piscina no local que paramos para almoçar no final de tudo, mas eu achei a água meio nojenta e não quis entrar. Mas tomei banho no chuveiro mesmo, então tem que levar toalha. Além disso, é preciso levar dinheiro para pagar uma taxa de turismo (quando eu fui eram 30 bolivianos) e possíveis compras extras, como bebida na hora do almoço. É bom ter uma mochila para deixar todos os seus pertences (ela fica no carro e pode ser acessada em todas as paradas). Eu ainda recomendo um lanchinho extra, mesmo que a empresa forneça snacks, água e almoço no fim do passeio.

Café da manhã
Café da manhã

A saída é bem cedo – foi marcado no ponto de encontro às 7h30 da manhã na esquina das ruas Murillo e Tarija, bem perto de onde fica a agência com a qual eu fiz o passeio. Eles recomendam tomar o café da manhã no restaurante Little Italy (provavelmente é do mesmo dono ou existe alguma parceria entre as empresas). Resolvemos seguir a indicação e achei a comida gostosa, tanto que voltei depois para jantar. Mas falo do restaurante em outra postagem, aqui vamos nos ater ao passeio. Quanto ao desayuno, também é possível ver se a sua hospedagem oferece a refeição mais cedo ou levar a sua própria comida.

Ponto de encontro para saída do passeio
Ponto de encontro para saída do passeio

Vencida a fome, é hora de partir para o passeio. É fácil de achar porque não tem muitas vans circulando por aí cheias de bicicleta no teto, não é mesmo? No ponto de encontro, é feita uma chamada para confirmar que todos estão presentes e o grupo, se for grande, é dividido em mais de um carro. Achei bem organizado. No meu caso foram dois carros e o guia aproveita a primeira parte da viagem para apresentar a equipe (motorista e dois guias), distribuir as roupas e equipamentos, passar algumas instruções e fazer um certo drama quanto à possibilidade de despencar barranco abaixo para uma morte rápida, porém apavorante. O passeio todo tem uma aura de perigo, o que dá um certo modo. Mas essa é mesmo a proposta.

Experimentando a bicicleta em Lo Cumbre
Experimentando a bicicleta em Lo Cumbre

Pouco mais de uma hora depois da saída, chegamos até o local onde começa efetivamente a descida, La Cumbre, junto a um lago ou represa a 4.700 metros de altitude. Mas antes de partir, cada pessoa recebe sua bicicleta (é preciso decorar o nome dela, já que será a mesma durante todo o trajeto) e o guia explica como vai ser a primeira etapa e passa algumas instruções. Também é feito o batismo, que consiste em beber uma coisa que é puro álcool (é horrível, mas dá uma aquecida interna) e jogar um pouco no chão. Daí temos um tempinho para dar algumas voltas para experimentar a bicicleta, os freios hidráulicos a disco, a suspensão e sentir um pouco de segurança.

Primeiro trecho do passeio no asfalto
Primeiro trecho do passeio no asfalto

Os primeiros 20 km de descida são pela parte asfaltada da rodovia, o que dá uma boa oportunidade para treinar. O guia passa algumas dicas de como inclinar a bicicleta, melhor posição dos pés, sensibilidade dos freios e outros detalhes. Essa é a parte que permite atingir as velocidades mais altas do passeio. Aos poucos você vai pegando segurança, mas é preciso estar atento ao tráfego de carros. Como cada pessoa vai no seu ritmo e a equipe precisa confirmar de tempos em tempos se todos estão bem, então são feitas algumas paradas ao longo desse percurso. Alguns vão correndo, enquanto outros são bem mais lentos.

As paradas frequentes são um pouco frustrantes porque porque você não tem liberdade para realmente ir embora livre, leve e solto (se for mais apressado) ou pode se sentir na obrigação de ir um pouco mais rápido para não reter o grupo (se for mais cuidadoso). Mas não tem muita solução, isso é necessário e acaba dando oportunidade para apreciar e tirar fotos da paisagem montanhosa, que é bem impressionante.

Trecho moderno da Estrada da Morte
Trecho moderno da Estrada da Morte

Ali temos que fazer o pagamento da entrada no parque nacional. Esse valor é utilizado para custear a manutenção da pista, implementar novas medidas de segurança e ajudar as comunidades locais. Também fazemos uma parada rápida e quem quiser pode comprar complementos para o lanche servido pela empresa – um pão recheado com presunto e queijo. As barraquinhas na beira da estrada vendem chocolate, pacotes de salgadinhos e coisas assim, além de bebidas. Como eu tinha tomado um café da manhã digno, não senti necessidade. Mas é bom levar um dinheirinho a mais, just in case.

Nessa parte as bicicletas são colocadas novamente em cima do carro porque tem uma subida de cerca de 10 km. E a gente não quer se matar subindo um morro de bicicleta, então é de se agradecer.

Descida de bicicleta pela antiga Estrada da Morte
Descida de bicicleta pela antiga Estrada da Morte

Daí chegamos na Ruta de la Muerte em si, a original e em condições duvidosas. Chegamos lá por volta das 11 da manhã. Esse percurso também é dividido por trechos. Em cada ponto de encontro, os guias explicam o que virá à frente, destacando as partes em que se deve tomar mais cuidado. Por exemplo: depois de passar por uma placa, vai ter uma curva acentuada à esquerda; há muitas pedras soltas nessa parte, então tome cuidado; etc.

No dia que eu fui estava caindo uma chuva fininha, o que aumentava o risco de derrapar. Além disso, a estrada é toda cheia de pedras, então é preciso segurar firme na bicicleta e tomar cuidado com os freios. Acho que ninguém do meu grupo teve problemas, pelo menos não que eu tenha visto. Na verdade, a estrada não é assim tão perigosa para os ciclistas que vão com alguma prudência. Não precisa ter medo de fazer esse passeio.

Foto de grupo no penhasco
Foto de grupo no penhasco

Por volta de 12h30 chegamos ao local mais famoso para tirar fotos. Como estava muito nublado e chovendo, não pudemos aproveitar tanto da paisagem. Mas até que combinou bastante com o passeio esse clima de filme de terror. Durante todo o passeio, os guias tiram fotos e fazem vídeos em pontos estratégicos. A câmera não é lá grandes coisas, então a qualidade não fica muito boa, principalmente nessas condições de clima e luz que pegamos. Mas vale como registro. De qualquer maneira, se você quiser utilizar um equipamento próprio, recomendo que o leve em uma case à prova d’água, o que vai proteger também da lama e da poeira.

Mesmo não dando para ver muito, pelas fotos dá para você ter uma noção da altura dos penhascos – a grande maioria sem nenhuma grade de proteção. Como se pode perceber, caiu, morreu. Você anda pelo caminho com uma média de 3 metros de largura, com um paredão de montanha de um lado e precipícios de até 600 metros de altura do outro. As nuvens e a neblina comprometem a visibilidade e o solo, mesmo quando seco, é bastante escorregadio devido às rochas que deslizam dos montes. Portanto, todo cuidado é pouco. Não pode descer igual um louco, mas a insegurança também atrapalha. Encontre seu ponto de equilíbrio.

Pose com as bicicletas
Pose com as bicicletas

Eu achei o pessoal da empresa bem bacana, tirando foto de cada uma das pessoas ou duplas. No meu caso, eu estava com meu namorado e também aproveitávamos para tirar fotos com meu celular – eu sou desses que gosta de registrar todos os momentos, me deixa.

Nessa parte do passeio chegamos às Cachoeiras de San Juan. A gente não apenas vê as quedas d’água, como também passa ao lado ou embaixo de algumas. Uma das coisas boas desse passeio é que as condições da estrada e vão mudando ao longo do dia. Você faz um trecho no asfalto, depois vai para uma cada de brita, passa por partes de terra e por aí vai.

Trecho com muita lama na beira do penhasco
Trecho com muita lama na beira do penhasco

Durante a última parada, fazemos mais um lanchinho rápido, que consiste em uma barra de chocolate e uma banana. Como já foi percorrido um longo trecho, já começa a fazer bastante calor, pois a altitude diminuiu bastante e os corpos já estão aquecidos pelo exercício físico. Nessa hora podemos aproveitar para tirar a roupa de baixo e deixar dentro do carro.

A partir daqui os trechos são mais longos. Algumas partes estavam realmente muito molhadas, pura lama mesmo. Ali era bem escorregadio e a pista ainda mais estreita. Tranca o cu e vai. Nessa parte também atravessamos um pequeno riacho que passa pela estrada. Aí já estamos bem no clima de floresta e começa a fazer calor de verdade.

A situação da roupa na chegada
A situação da roupa na chegada

Os últimos trechos passam por pequenas vilas, até que chegamos ao final do passeio e paramos para tirar as roupas bem sujas de lama (bem que eles avisaram). Ali é preciso devolver todos os itens para os guias (luvas, capacete, calça, jaqueta) e as bicicletas são colocadas novamente em cima do carro. Dali vamos para a última parada antes de voltar para La Paz.

O bom e merecido banho quente
O bom e merecido banho quente

Chegamos por volta das 15h30 em uma casa onde podemos nos lavar. A estrutura não era lá das melhores. As duchas são protegias por essas cortinas de banheiro que não garantem muita privacidade; a água fica um pouco empossada, daí fica aquela dificuldade para se vestir sem molhar a roupa; não tem onde pendurar a toalha e deixar seus objetos… mas enfim, um banho quente depois de um dia desses sempre é bem vindo. Minha principal recomendação é sair logo do carro e ir para o chuveiro antes que se forme uma fila, porque ninguém merece ser o bobo que fica esperando enquanto todo mundo já está lindão.

Almoço no meio da tarde, ao final do passeio
Almoço no meio da tarde, ao final do passeio

Pouco depois de tomar banho, é servido o almoço. A comida é preparada e servida pelo pessoal que mora na casa. Como entrada tivemos uma sopa de legumes e o prato principal era macarrão com molho de tomate, peito de frango, uma tira de pão e banana frita. Também tinha uma saladinha básica. A refeição estava gostosa, simples, prática.

O local parece uma dessas casas de fazenda, meio rústico, mas agradável. Ali você tem a opção de fazer uma trilha pelo mato até o rio ou pagar para descer em uma tirolesa. Eu até cheguei a cogitar caminhar por lá, mas vi que estava com muito barro por causa da chuva e desisti. Acabou que ficamos esperando todo mundo comer para pegar a estrada de volta para La Paz.

Depois disso é um longo caminho até a cidade, especialmente demorado porque o corpo está cansado. Para piorar a situação, o pessoal mais empolgado comprou várias cervejas no local do almoço e colocou uma música bem alta e eu estava naquele clima de querer dormir para sempre. Mas tudo bem, ninguém tem culpa dessa minha alma de idoso presa num corpo jovem e esbelto (ata). Chegamos em La Paz já a noite e o motorista deixa cada um dos turistas em suas respectivas hospedagens.

No final ganhamos uma camisa da empresa (que serve para ficar dentro de casa) e as imagens capturadas pelos guias são colocadas em uma pasta compartilhada pelo Dropbox. Mas não tenha pressa. Como eles mesmos disseram, a internet em La Paz é péssima e demorou semanas para que os arquivos fossem disponibilizados por completo. Em resumo, passamos por cerca de 64 km da Estrada da Morte, sendo que 90% do trajeto é feito em descida. Há registro da morte de pelo menos 20 ciclistas desde quando o local se tornou uma atração turística, nas últimas décadas. Acima está um vídeo com algumas imagens desse dia de luta, dia de glória.

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