Plaza Murillo

La Paz – Plaza Murillo

A Plaza Murillo está situada no centro de La Paz e é, de certa forma, também o centro do país – não geográfico, mas é que ali está o marco zero da Bolívia, a partir de onde são medidas todas as distâncias para outros locais. Sua importância não é infundada. O espaço foi concebido apenas dez anos depois da fundação de Nuestra Señora de La Paz a mando do corregedor Ignacio de Aranda, em 1558. A praça seguiu a configuração das cidades espanholas, com as ruas em ângulos retos, formando quadras simétricas.

No começo do século XIX, a ainda era chamada Plaza Mayor era o cenário principal da vida pública e centro do poder na cidade. Em volta dela, estavam situados os edifícios das principais instituições locais, como o Cabildo de la Paz (atual Palacio de Gobierno), a Iglesia Mayor (atual Catedral) e as Cajas Reales (onde funciona hoje a Prefeitura), além das casas dos cidadãos mais proeminentes. Por ser um reduto da elite, o centro da cidade tinha a melhor estrutura da região, contando com iluminação noturna e fontes de água. Os ritos cívicos (posse de autoridades, desfile de tropa), religiosos (procissões, cortejos fúnebres, festas) e de justiça (execuções) se realizavam na praça. Mas também era usada no cotidiano, com a presença de pequenos comerciantes mestiços e indígenas vendendo seus produtos.

Acampamento próximo à Plaza Murillo
Acampamento próximo à Plaza Murillo

Como funciona atualmente ali a sede do governo, o local manteve a sua importância política e social, sendo palco de várias manifestações. Quando eu fui para La Paz, as quadras em volta da praça estavam fechadas pela polícia com grades, carros e muita gente armada. Havia uma manifestação de deficientes físicos que pediam maiores benefícios estatais e se encontravam acampados há mais de um mês nos arredores. O clima parecia ser bem tenso, tanto que eu achei que o acesso estava bloqueado totalmente. Mas cheguei até a barreira policial, que parecia estrutura de guerra, e perguntei se podia entrar. Eles perguntaram para quê e eu disse que era turista e queria visitar o local. Deixaram. Simples assim, vai entender?

Monumento no centro da praça
Monumento no centro da praça

O destaque da praça em si é o monumento central com três metros de altura, em estilo neoclássico, em homenagem a Pedro Domingo Murillo, o herói da independência boliviana. Em 16 de julho de 1809, encabeçados por ele e outros líderes locais, a revolução contra o império espanhol instaurou o primeiro Gobierno Libre de Hispanoamérica. Poucos meses depois eles foram dominados e, em 29 de janeiro de 1810, Murillo foi enforcado. Na época, o local era chamado Plaza de Armas. A independência só seria conquistada em 6 de agosto de 1825. Na ocasião, a praça mudou novamente de nome, homenageando o dia do levantamento contra a Espanha, passando a se chamar Plaza 16 de Julio. O nome Plaza Murillo foi adotado em 1909, junto às comemorações do centenário do levantamento contra os colonizadores.

O monumento é obra do escultor italiano Ferruccio Cantella. Nos quatro cantos da base estão as palavras paz – union – gloria – fuerza. Sobre o pedestal, encontram-se as estátuas de bronze para cada uma das palavras. Na paz está uma mulher, que representa a Madre Patria; na união, um soldado libertador com um escudo escrito pueblo; na gloria, uma figura feminina com asas de anjo e uma trombeta; na força, um leão, que simboliza a coragem e a vitória. Na parte superior, encontra-se a estátua de Murillo, que encontrou certa resistência da elite boliviana à época por ser mais parecida com um toureiro.

Aos pés do monumento, está um livro aberto com a citação atribuída aos líderes revolucionários. Além desse monumento, a praça possui várias estátuas femininas feitas em mármore de Carrara, que representam as estações do ano e as musas das artes (música, escultura, pintura e arquitetura). Fora os pombos. Milhares deles.

Catedral Metropolitana de La Paz
Catedral Metropolitana de La Paz

A Catedral Metropolitana de La Paz é a sede da arquidiocese da cidade. A primeira catedral de La Paz foi terminada em 1692, após 70 anos de construção da estrutura em pedra, cal e ladrilho. Em 1831, optou-se por sua demolição devido ao colapso de parte do edifício e a presença de várias rachaduras. Os trabalhos de levantamento da catedral atual começaram em de 1835, sendo inaugurada 90 anos depois, junto ao primeiro centenário da fundação república da Bolívia. Já a ornamentação interior só ficou pronta em 1932. As torres laterais só foram inauguradas em 1989, coincidindo com a visita do Papa João Paulo II. Quando eu fui, as portas estavam fechadas – não sei se pelo dia/horário ou devido às manifestações que aconteciam na região. De qualquer maneira, foi possível observar a belíssima fachada.

Palacio de Gobierno
Palacio de Gobierno

A construção desse edifício ao lado da catedral, destinado a ser o Cabildo de la Paz (corporação municipal criada pelo império espanhol para a administração da cidade), se iniciou em 1559, passando por expansões e melhorias ao longo dos séculos. Depois da independência, em 1825, passou a servir como a sede do governo e da prefeitura. Em 1846, o presidente General José Ballivian ordenou a sua demolição e deixou o projeto do novo prédio a cargo do arquiteto Don josé Nuñez del Prado, responsável pelo Teatro Municipal de La Paz, inaugurado no ano anterior. O edifício atual, chamado oficialmente de Palacio de Gobierno, ficou pronto em 1853.

Dois presidentes foram assassinados ali: Belzu, em 1865 e Augustín Morales Hernández, em 1872. O espaço em que ocorreram ambos os assassinatos ficou conhecido como Salón Rojo (Saltão Vermelho). Outro evento traumático fez com que o edifício ficasse conhecido como Palacio Quemado. Em 20 de março de 1875, o local foi atacado durante uma revolta e acabou pegando fogo, ficando inutilizável. Nesse dia, 130 pessoas que participavam do ataque foram mortas por forças leais ao governo. Os trabalhos de restauração foram iniciados em 1882 e concluídas oito anos depois. Já em 1899, torna-se oficialmente a sede presidencial após a Guerra Federal, substituindo o Palacio Nacional de Sucre. Uma grande reestruturação foi feita anos depois, em 1923, e é mantida até hoje.

Asamblea Legislativa Plurinacional
Asamblea Legislativa Plurinacional

O edifício da Asamblea Legislativa Plurinacional de Bolivia também chama bastante atenção, já que ocupa todo um lado da praça. Este é o principal órgão do legislativo do país, sendo composto pelo Senado e Câmara dos Deputados. Antes de ser o palácio legislativo, esse prédio serviu como convento e uma universidade.

A grande curiosidade ali, entretanto, é o relógio que se encontra na fachada. Um detalhe pode passar despercebido por grande parte das pessoas que visitam o local: os números são dispostos em ordem inversa e os ponteiros rodam em sentido anti-horário. A novidade surgiu em 2014 e parece ter sido adotada para conscientizar os cidadãos de que a Bolívia é uma nação do Sul, seguindo o solstício e equinócio desse hemisfério. A ideia é revalorizar a cultura que é própria do local. A explicação não me convence muito, mas é realmente curioso ver um relógio às avessas.

Além desses edifícios, encontram-se nos arredores da praça o Museu Nacional de Arte e outros prédios históricos que valem à pena ser vistos.

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