Morro de São Paulo – Convento e Igreja de Santo Antônio

Esse complexo religioso da cidade de Cairu é desconhecido da maioria dos turistas que vão a Morro de São Paulo, ainda que grande parte deles tenha oportunidade de visita-lo durante o passeio Volta à Ilha, que passa por várias praias e vilas da região. Isso acontece, principalmente, por ser a última parada de um tour que dura o dia inteiro, quando as pessoas já estão completamente esgotadas depois de passar horas viajando de barco, nadar em piscinas naturais e fazer caminhada. Eu entendo, esse dia realmente é bem cansativo. Mas vale a pena fazer um esforço para conhecer a história desse edifício tombado, em 1941, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

Originalmente, Cairu era habitada pelos índios Aimorés. A região passou a ser tomada na primeira metade do século XVI, quando Francisco Romeo, administrador da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, iniciou a povoação do local. Em 1610, foi criado o município denominado Vila de Nossa Senhora do Rosário de Cairú, que significa “casa do sol” em tupi. Há registros antigos de uma capela privada construída pelo casal Domingos da Fonseca Saraiva e Antônia de Pádua Góes que era utilizada por frades franciscanos itinerantes. Já em 1650, o frei Sebastião do Espírito Santo enviou os freis Gaspar da Conceição, João da Conceição e Francisco de Lisboa para fundarem um convento no local. A estrutura de taipa, uma mistura de barro com cascalho, foi inaugurada em 21 de março do mesmo ano.

O projeto da construção definitiva, em alvenaria, só foi decidido anos depois. A pedra fundamental foi lançada em 1954 e as obras dependiam das doações da comunidade, que não era rica. Embora não existam registros significativos da história inicial do convento, é possível supor que uma parte da estrutura foi inaugurada em 1661, data que se encontra gravada na verga da porta que liga a sacristia e a capela-mor. Pela mesma lógica, acredita-se que a fachada ficou pronta antes de 1686, pois esse número está presente na parte frontal do Convento de Paraguaçu, inspirado no de Cairu. A portaria do convento possui a data de 1739. Estima-se que as outras estruturas e decorações só ficaram prontas em cerca de 1750.

Convento e Igreja de Santo Antônio

A grande importância do Convento e Igreja de São Francisco de Cairu é pelo fato de ser considerada a primeira construção com estilo barroco no Brasil. Depois de sua construção, vários templos erguidos no país seguiram a mesma tendência, inspirados em seu desenho. A fachada se estrutura em forma de um triângulo escalonado: no primeiro nível, estão cinco arcos que dão acesso à parte interna; no segundo, três grandes janelas contornadas por volutas e pináculos; o terceiro possui a imagem do santo padroeiro e elementos ornamentais; o quarto e último nível coroa o edifício e sustenta a cruz. Ao lado esquerdo, recuado em relação à fachada principal, encontra-se o campanário – a torre com o sino.

Como faz parte de um passeio turístico que passa por vários pontos em volta da Ilha de Tinharé, as paradas têm um tempo programado. Caso tenha interesse de visitar a parte interna da igreja e do convento, é importante se dirigir imediatamente para o local assim que desembarcar na cidade. Só é preciso subir um pequeno morro e recomendo que você recuse a assistência dos guias que ficam em cima dos turistas, já que não é realmente necessário. Guarde esse dinheiro para a entrada – sim, é pago.

Lavabo em pedra de lioz

Da decoração original, ainda podem ser vistos alguns elementos como a grade do coro com uma imponente moldura em volta do crucifixo com esplendor, algumas pinturas como a que se encontra sob o coro, a capela de Santa Rosa de Viterbo, diversas peças de estatuária e outros. A sacristia é especialmente notável pela riqueza dos azulejos que cobrem todas as paredes, a pintura do teto atribuída ao baiano José Joaquim da Rocha que ilustra a vida de Santo Antônio e o lavabo em pedra de lioz. De todos os ambientes do convento, a sacristia é a que se mantém mais próxima das condições originais. Tudo isso é explicado pelos guias que acompanham a visitação.

Depois de um período de riqueza no século XVII, os franciscanos enfrentaram muitas dificuldades, chegando à quase extinção no Brasil no século XIX. Devido a isso, os edifícios não tiveram a devida manutenção. Ainda assim, com a chegada dos frades alemães por volta de 1880, iniciou-se uma lenta recuperação que seguiu por novas tendências estéticas, substituindo elementos barrocos pelos neoclássicos. Com o tombamento do complexo pelo IPHAN em 1941, iniciaram-se novas obras de restauro, dessa vez com preocupação histórica, concluídas apenas na década de 1970. As últimas reformas foram nos anos 2000.

Paredes decoradas com azulejos

A parte do convento é mais singela, mas também possui painéis de azulejos, inclusive os mais antigos de todo o complexo, que se encontram no refeitório. Também podem ser observados mobiliários entalhados e outros objetos. No piso superior, ficam a biblioteca, as celas dos frades e outros cômodos. Quando eu fui, não visitamos essa parte superior.

A parte neoclássica, embora menos relevante historicamente, também são muito bonitas. A igreja possui uma nave única, capela, coro e tribunas. Do ambiente, destaca-se o altar principal. A pintura do teto da igreja data de 1875 e mostra Jesus Cristo causando o terror ao segurar um raio nas mãos diante de um grupo de pessoas ajoelhadas, uma composição bem diferente da que estamos acostumados a ver associados à sua figura. Não é uma obra de arte, já que apresenta problemas no desenho das figuras e representação da perspectiva, mas possui apelo pela riqueza e cores vivas. Durante os estudos realizados nos anos 2000, foi constatado que esta obra esconde pinturas originais do século XVIII, mas ainda não se procedeu um restauro.

Detalhe da parte interna

A visita, apesar de rápida, é muito interessante para quem gosta de conhecer um pouco da história do nosso país, de arquitetura e arte. O ingresso é barato e a ida até o local já está inclusa no passeio Volta à Ilha, que grande parte dos turistas que vão a Morro de São Paulo fazem. Vale a pena!

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