Quimera da Catedral de Notre-Dame | Foto: John Cornellier

Paris – Gárgulas e quimeras da Notre-Dame

A pessoa vai projetar uma construção, notadamente uma catedral ou qualquer outra coisa religiosa, e resolve colocar uns bichos tenebrosos de feios para decorar a parte externa. Qual o sentido? Durante o século XII, quando as gárgulas apareceram na Europa, a igreja católica estava se fortalecendo e convertendo muitos novos fiéis. A maioria da população da época não era alfabetizada e, por isso, o uso de imagens era muito importante para transmitir ideias. Acredita-se que essas figuras eram usadas para indicar que o demônio nunca dormia, exigindo vigilância contínua dos fiéis. Também tem quem diga que as esculturas seriam usadas para afastar o mal e os espíritos perversos, assustando-os. Em ambos os casos, a presença dos monstros reforçavam a necessidade da presença igreja para proteger a população.

Gárgulas da Catedral de Notre-Dame | Foto: Krzysztof Mizera
Gárgulas da Catedral de Notre-Dame | Foto: Krzysztof Mizera

A palavra francesa gargouille vem do latim gurgulio ou gula, que significam gargalo ou garganta, além de lembrar o som feito pela ingestão de líquidos. O termo faz referência à função das gárgulas na arquitetura, quando eram utilizadas como desaguadouros, ou seja, a parte saliente das calhas do telhado com função de escoar as águas das chuvas a uma certa distância da parede e, assim, evitar o desgaste da estrutura. Esse tipo de desaguadouro já aparecia no Egito antigo, onde eram usados para transportar as águas que passavam pelos tetos dos templos e eram usadas para lavar os vasos sagrados. Na Grécia, a água passava por dentro da boca de leões esculpidos em mármore, como no templo de Zeus, ou modelados em terracota. Em Pompéia, foram encontradas muitas gárgulas de terracota na forma de animais.

Quasimodo na Catedral de Notre Dame | Ilustração: Luc-Olivier Merson
Quasimodo na Catedral de Notre Dame | Ilustração: Luc-Olivier Merson

A Catedral de Notre-Dame de Paris, uma das mais famosas construções em estilo gótico do mundo, possui várias gárgulas e quimeras – muitas das quais podem ser vistas de perto ao subir as torres. Assim como a maior parte do exterior da catedral, as estatuas eram coloridas, mas a pintura se desgastou e desapareceu com o tempo. O interesse e fascinação por essas belíssimas esculturas renasceu no século XIX, em parte devido ao sucesso do livro Notre Dame de Paris, publicado em 1831, em que o autor relaciona a monstruosa feiura de Quasimodo com as figuras com que vive.

Henry Le Secq junto à quimera Stryge, em 1853 | Foto: Charles Negre
Henry Le Secq junto à quimera Stryge, em 1853 | Foto: Charles Negre

Além das gárgulas, existem as quimeras, que também são caracterizadas por suas formas grotescas, mas não funcionam como desaguadouros, tendo funções apenas artísticas e ornamentais. Uma das mais conhecidas quimeras é a stryge, criada durante as reformas da catedral de Notre-Dame, em 1792. De um modo geral, as pessoas não fazem essa diferenciação e chamam todos esses monstrinhos de gárgulas. Na verdade, apesar da maioria das gárgulas serem figuras grotescas, o termo inclui qualquer tipo de desaguadouro (ou não). Algumas são esculpidas como monges, outras combinando animais reais e pessoas, e muitas são cômicas.

As gárgulas e quimeras foram largamente utilizadas nos parapeitos das edificações até o começo do século VXIII. A partir daí, tornou-se mais comum trazer os canos que conduziam a água até o nível da rua. Essa mudança aconteceu porque muitas pessoas achavam as figuras aterrorizantes e porque, devido ao seu peso e posicionamento, algumas das esculturas acabavam se soltando das paredes e caiam, causando danos.


Foto de capa: John Cornellier

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