Leite Derramado

Leite derramado ★★★★★

Ano: 2009
Autor: Chico Buarque

Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como Chico Burque, é um artista brasileiro que dispensa apresentações (ou assim quero crer). Mais famoso por suas músicas, é também dramaturgo e escritor. Ainda nos tempos de colégio, se destacou como cronista e teve seu primeiro livro, que trazia manuscritos das primeiras composições, publicado em 1966, aos 22 anos de idade. Em 1974, escreve a novela pecuária Fazenda modelo e, cinco anos depois, lança um livro-poema para crianças intitulado Chapeuzinho Amarelo. A bordo do Rui Barbosa, escrito entre 1963 e 1964, só foi lançado em 1981. Mas foi a partir da década de 1990 que Chico Buarque se destacou como escritor, lançando em 1991 o romance Estorvo, vencedor do Prêmio Jabuti de melhor romance do ano, e, quatro anos depois, Benjamim. Os dois livros seguintes, Budapeste, de 2004, e Leite derramado, de 2009, ganharam o mesmo prêmio. O trabalho mais recente (até a data de publicação dessa postagem), chama-se O irmão alemão, e foi lançado em 2014.

Chico Buarque
Chico Buarque

Leite derramado foi o quarto romance do autor, lançado em 2009 pela editora Companhia das Letras. No livro, temos como narrador um velho senhor internado no hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele conta as histórias de sua vida à sua filha, às enfermeiras, a quem quer que passe pelo local e, indiretamente, aos leitores. A maioria da trama se passa no Rio de Janeiro, desde os tempos de seus ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República e até os tempos atuais, com seus descendentes.

Uma das grandes qualidades desse romance é a fala desarticulada do velho que, ao mesmo tempo que reflete as duas inseguranças e falhas na memória, cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. A mesma história pode ser recontada em diferentes contextos, com falsidades e não-ditos, de modo que o leitor precise ler nas entrelinhas os fatos que o personagem não consegue assumir para si mesmo.

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Além disso, a trajetória de sua família serve como exemplo da decadência social e econômica vivida no país e Chico Buarque consegue criar um panorama preciso e irônico dos últimos duzentos anos da história do Brasil, inserindo elementos de preconceitos de classe e de raça, machismo, oportunismo, política, corrupção, destruição, religiosidade, ecológica, criminalidade e delinquência. Os temas são tão importantes quanto o drama pessoal vivido pelo velho, que, a todo tempo, relembra a sua primeira esposa – uma personagem tão importante quanto ele próprio.

Abaixo, está transcrito o primeiro capítulo da obra, que pode ser adquirida em formato impresso ou digital na loja Amazon.com.

Capa do livro Leite derramado

Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardó­sia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim, que virou estacionamento depois que a embaixada da Dinamarca mudou para Brasília. Os dinamarqueses me compraram o casarão a preço de banana, por causa das trapalhadas do meu genro. Mas se amanhã eu vender a fazenda, que tem duzentos alqueires de lavoura e pastos, cortados por um ribeirão de água potável, talvez possa reaver o casarão de Botafogo e restaurar os móveis de mogno, mandar afinar o piano Pleyel da minha mãe. Terei bricolagens para me ocupar anos a fio, e caso você deseje prosseguir na profissão, irá para o trabalho a pé, visto que o bairro é farto em hospitais e consultórios. Aliás, bem em cima do nosso próprio terreno levantaram um centro médico de dezoito andares, e com isso acabo de me lembrar que o casarão não existe mais. E mesmo a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia. Estou pensando alto para que você me escute. E falo devagar, como quem escreve, para que você me transcreva sem precisar ser taquígrafa, você está aí? Acabou a novela, o jornal, o filme, não sei por que deixam a televisão ligada, fora do ar. Deve ser para que esse chuvisco me encubra a voz, e eu não moleste os outros pacientes com meu palavrório. Mas aqui só há homens adultos, quase todos meio surdos, se houvesse senhoras de idade no recinto eu seria mais discreto. Por exemplo, jamais falaria das putinhas que se acocoravam aos faniquitos, quando meu pai arremessava moedas de cinco francos na sua suíte do Ritz. Meu pai ali muito compenetrado, e as cocotes nuinhas em postura de sapo, empenhadas em pinçar as moedas no tapete, sem se valer dos dedos. A campeã ele mandava descer comigo ao meu quarto, e de volta ao Brasil confirmava à minha mãe que eu vinha me aperfeiçoando no idioma. Lá em casa como em todas as boas casas, na presença de empregados os assuntos de família se tratavam em francês, se bem que, para mamãe, até me pedir o saleiro era assunto de família. E além do mais ela falava por metáforas, porque naquele tempo qualquer enfermeirinha tinha rudimentos de francês. Mas hoje a moça não está para conversas, voltou amuada, vai me aplicar a injeção. O sonífero não tem mais efeito imediato, e já sei que o caminho do sono é como um corredor cheio de pensamentos. Ouço ruídos de gente, de vísceras, um sujeito entubado emite sons rascantes, talvez queira me dizer alguma coisa. O médico plantonista vai entrar apressado, tomar meu pulso, talvez me diga alguma coisa. Um padre chegará para a visita aos enfermos, falará baixinho palavras em latim, mas não deve ser comigo. Sirene na rua, telefone, passos, há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos raros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco.

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16 comments

  1. Genteeeee, que livro maravilhoso! Eu nem sabia que o chico buarque escrevia, parece bem legal o estilo de escrita dele. Quero ler, me deixou muito interessada, pelo trecho dá pra perceber que a leitura é bem fluida.

    Beijos, Gi.

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  2. Nossa eu não sabia da existência desse livro, parece ser muito bom, deve ter bastante detalhes das épocas das histórias que o personagem vai lembrando e narrando. Dica anotada. Adorei sua resenha.

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  3. Que ótima indicação!
    Fiquei surpreso, pois não sabia que Chico Buarque também escrevia, isso sim que eu chamo de descoberta do dia! haha Mas o livro em si parece muito bacana, com uma escrita divertida e envolvente!
    Gostei super, um abraço!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Olá!
    Eu já tinha ouvido falar sobre algumas obras do Chico Buarque, mas nunca me interessei em saber mais sobre elas. Tenho certeza que “Leite derramado” é uma obra riquíssima e muito bem escrita, mas infelizmente não é o tipo de leitura que me agrada. Desta vez eu passo a dica.

    Abraço!

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