Quando eu comecei a pesquisar para a minha viagem pela Patagônia Argentina, percebi que todos os destinos possuíam diversas opções de trilhas com diferentes níveis de dificuldade. Em Ushuaia eu me concentrei nos passeios guiados mais tranquilos e em El Calafate cheguei a fazer uma breve caminhada sobre o gelo, experiência muito diferente e interessante.

Já em El Chaltén, conhecida como a capital nacional do trekking, eu estava sozinho e pude dedicar mais tempo aos atrativos que exigem caminhadas longas. Estou falando de dez quilômetros somente de ida para chegar nas lagoas que ficam aos pés dos montes mais altos. Vale a pena dar uma conferida nas opções de passeios, já que muitos exigem maior planejamento, equipamentos específicos e reserva prévia.
Como exemplos posso citar alguns atrativos como: a caminhada sobre o gelo do Glaciar Cagliero; a visualização de fósseis de dinossauros e diversas espécies de plantas no Bosque Petrificado; o paradisíaco entorno do Lago del Desierto com vistas para os glaciares Huemul e Vespignani; a navegação pelas águas do Río de las Vueltas com a emoção do rafting ou em um ritmo mais tranquilo com o caiaque; o acampamento aos pés do Monte Fitz Roy; ou a experiência única de um curso privado de escalada no gelo.
Também é possível fazer muita coisa por conta própria, principalmente para aqueles que podem ir a lugares mais distantes com um veículo próprio ou de carro alugado, o que pode representar uma grande economia. Vale a pena dar uma estudada no mapa interativo acima para entender onde fica cada destino turístico e como chegar o mais próximo deles pelas estradas que cortam a região, podendo até incluir algumas paradas na viagem entre as cidades visitadas.

Para El Chaltén, uma boa dica é entrar no Centro de Visitantes, que fica logo na entrada da cidade, para tirar dúvidas e se informar sobre as condições atualizadas das trilhas. Algumas podem ser feitas com total liberdade, enquanto outras exigem o registro de cada visitante. Importante lembrar que se trata de uma área de preservação do Parque Nacional Los Glaciares.

No meu caso, fiz o trajeto direto de ônibus entre El Calafate e El Chaltén, com duração de umas três horas. Assim que cheguei ao Terminal de Ómnibus, me dirigi até o balcão de informações turísticas para confirmar se era tranquilo fazer os passeios que eu queria por conta própria. Também aproveitei para pegar um mapa com a descrição dos atrativos mais procurados, as distâncias a serem percorridas e outros detalhes relevantes.

Muitas pessoas fazem o bate e volta El Chaltén, Mirante de los Cóndores e Chorrillo del Salto, que parte de El Calafate e visita a cidade, a cachoeira e o mirante de mais fácil acesso. Eu queria conhecer melhor a região e ir até os pontos mais famosos, o que demanda mais tempo. Para isso, era necessário ficar alguns dias hospedado no local. Entre as diversas opções de hospedagem, procurei uma com bom custo-benefício e conforto, acabando por escolher o Nikeu Aparts. A acomodação conta com pequenos apartamentos que abrigam até quatro pessoas e são equipados com cozinha compacta.

Importante notar que a alta temporada se dá nos meses mais quentes do ano, durante a primavera e o verão do hemisfério sul, entre novembro e março. Eu fui nas primeiras semanas de abril e já encontrei alguns estabelecimentos fechados ou com horário de funcionamento reduzido. Apesar disso, não tive problemas, pois as trilhas ainda estavam em boas condições, sem neve ou placas de gelo, e havia um fluxo constante de pessoas que dava uma certa segurança mesmo para mim, que estava passeando sozinho.

O ponto positivo é que algumas coisas podem ficar mais baratas na baixa temporada. Ainda assim, é preciso se planejar bem com relação aos gastos. O câmbio na cidade, por exemplo, não é tão vantajoso quanto nas cidades maiores. Eu estava usando um cartão de débito internacional, que tinha como parâmetro o dólar paralelo, então não tive problemas com relação a isso. Mas a hospedagem foi paga com dinheiro vivo, trocado previamente. Vale a pena fazer uma pesquisa mais profunda antes da viagem, visto que o país passa por momentos turbulentos na área econômica, com altas taxas de inflação.

As formas de locomoção mais comuns pela cidade e proximidades são a pé, de bicicleta, com carro alugado, usando o serviço de taxis ou contratando passeios guiados. Com relação às trilhas, achei tudo muito bem sinalizado, tanto pelas indicações dos locais de início quanto durante a caminhada em si. Por isso mesmo, senti segurança em ir aos atrativos mais próximos por conta própria. Mas para quem visita o local nos meses de inverno, talvez seja interessante contratar um guia porque a neve esconde alguns obstáculos e há riscos maiores de quedas devido à formação de gelo, que é bem escorregadio.

Vamos aos locais que eu visitei durante meus quatro dias na cidade. Como El Chaltén está rodeada de montanhas, não faltam mirantes que permitem tanto ver a cidade quanto a paisagem em volta. O Mirador de Los Côndores é o mais visitado devido à facilidade de acesso. A trilha começa atrás do Centro de Visitantes, tem uma subida leve e o trajeto total é de cerca de 1.3 km. Com mais 1 km de caminhada pela mesma área, chega-se ao Mirador de las Águilas, com vista para o Lago Viedma. Menos conhecido pelos turistas, o Mirador del Paredón também merece ser visitado, mas a porção final dos 1.75 km tem uma inclinação mais pesada.

Quem está de carro alugado pode chegar bem pertinho do Chorrillo del Salto, precisando andar apenas mais uns 550 metros para chegar até a queda d’água principal da cachoeira. Já quem sai da cidade deve enfrentar 3 km. Apesar da distância, essa trilha ainda pode ser considerada leve porque o trajeto é praticamente todo no plano, seguindo a estrada de terra que sai da comunidade.

A Laguna Capri fica a quase 4 km de distância, mas é um caminho mais puxado porque no começo tem uma subida leve e constante. Quando eu passei por lá no começo da manhã, estava com uma névoa intensa que não permitia ver nada. Mais tarde, o céu abriu e a temperatura subiu um pouco, revelando toda a beleza do lugar. Vi algumas pessoas acampando por lá, o que deve ser uma experiência única.

Tem um outro acampamento uns 4 km mais para frente. Quem quiser dormir próximo ao Monte Fitz Roy pode pegar o passeio guiado. Como essa é a montanha mais alta da região, alcançando os 3.405 metros de altitude, dá para ver o pico de longe de diversos pontos, até mesmo nos mirantes próximos à cidade. Obviamente, a vista depende de não ter nuvens baixas. O clima da região é um tanto imprevisível, além de passar por mudanças drásticas rapidamente. Felizmente eu dei sorte e peguei dias lindos por lá.

O objetivo final dessa trilha é chegar até a Laguna de los Tres, que fica aos pés do famoso monte. A subida do quilômetro final é bastante intensa. Como a inclinação é alta, o caminho precisa ser feito em zigue-zague. Também aumenta a dificuldade ter andar sobre pedras de diferentes tamanhos e formas, algumas delas soltas ou com crostas de gelo, tornando tudo mais perigoso. Mas foi, certamente, o lugar mais bonito que visitei nessa região.

Outra trilha bem longa, com uns 9 km somente na ida, é a que leva até a Laguna Torre. Apesar da distância, a ida até lá foi um pouco mais tranquila porque os morros não são tão cansativos. As suas águas estavam bem mais turvas, mas o visual ali também impressiona muito com os grandes blocos de gelo flutuando na água. Ali perto também tem um acampamento para quem quiser passar uma noite e explorar melhor a área.

Inclusive, uma caminhada extra de 2 km leva até o mirante de onde dá para ver melhor o Glaciar Maestri. São justamente os pedaços de neve compactada que se desprendem dessa encosta que aparecem no lago. Eu ainda encontrei uma pequena cachoeira escondida perto do final da trilham, as Cascadas de Solcito.

Como eu tinha um tempo limitado em El Chaltén, além de estar sozinho e sem um carro alugado, acabei fazendo somente os passeios mais importantes e próximos. Quando voltava à comunidade, aproveitava para comer nos restaurantes locais. Entre as boas opções, posso citar as massas frescas da Maffía Trattoria, os sabores interessantes da Laborum Pizzaria, o espaço agradável do Mathilda e a gastronomia local do Ahonikenk Fonda Patagonica.
