Eu, capitão

Eu, capitão ★★★★☆

Título original: Io capitano
Ano: 2024
Direção: Matteo Garrone
Elenco: Seydou Sarr, Moustapha Fall, Issaka Sawadogo, Hichem Yacoubi e Doodou Sagna.

O continente africano é marcado pela pobreza de grande parte de sua população, que busca melhores oportunidades em países europeus. Para isso, talvez seja necessário deixar para trás tudo o que se tem: abandonar a família, gastar todo o dinheiro economizado e embarcar em uma odisseia repleta de riscos.

Barco lotado de imigrantes
Barco lotado de imigrantes

No filme, dois garotos adolescentes decidem partir em direção à Itália com o sonho de conseguir um trabalho que permita viver em melhores condições e ajudar seus parentes. Já sabemos que a travessia entre a África e a Europa é feita em barcos superlotados e em péssimas condições, o que muitas vezes acaba em tragédia. São frequentes as notícias de naufrágios e outros problemas. Mas o que mostra essa história, que tem como base relatos de situações reais, é que os problemas começam bem antes de chegar ao mar.

Cultura local
Cultura local

O maior acerto desse roteiro é focar no elemento humano. Em um primeiro momento, vemos os personagens interagindo com seus familiares e amigos em casa, no trabalho e nas ruas de Dakar, capital do Senegal. A região foi colonizada pelos franceses, mas mantém uma rica cultura mostrada na linguagem (o idioma oficial francês é falado cotidianamente por uma minoria da   população), vestimentas, gastronomia, rituais, músicas, dança e outros elementos diversos.

Pobreza crônica
Pobreza crônica

Vivendo em casas precárias, os protagonistas vêem na viagem para outro país a única possibilidade de escapar da pobreza. É um projeto arriscado, mesmo porque tudo é feito de forma ilegal e não são passadas informações claras sobre o trajeto a ser percorrido, a duração viagem, os meios de transporte utilizados, a estrutura encontrada no destino, etc. O fato de as pessoas se sujeitarem a tal situação revela o desespero em que se encontram.

Travessia pelo norte africano
Travessia pelo norte africano

Em um primeiro momento, pode parecer a inconsequência de dois adolescentes. Mas o fato é que embarcam nessa jornada pessoas de todas as idades, alguns sozinhos e outros com a família inteira, vindos de diversos países da região. Por se encontrarem em uma situação extremamente vulnerável, eles são alvo fácil para golpes, chantagens, extorsão e outros crimes.

Deserto do Saara
Deserto do Saara

Logo fica claro que os perigos começam muito antes da viagem de barco. De fato, é preciso fazer a travessia do Deserto do Saara sem nenhum planejamento prévio e em condições precárias. Como são considerados descartáveis, algumas pessoas perdem a vida já nessa etapa da viagem, imperando o salva-se quem puder.

Assaltos e torturas
Assaltos e torturas

Sem acesso a qualquer tipo de proteção oficial, esses africanos são vítimas de assaltos e torturas por compatriotas que querem tirar todo e qualquer dinheiro e bens que possuam. Eu já tinha lido notícias de esquemas desse tipo na travessia da fronteira americana, com cobrança de taxas antes não especificadas, mas as imagens mostradas nesse filme são de um nível de crueldade que eu não imaginava existir.

Trabalho análogo à escravidão
Trabalho análogo à escravidão

Como também não têm condições de voltar para a casa, muitos também acabam sendo obrigados a fazer trabalhos análogos à escravidão. Pode parecer um exagero, mas se pensarmos que isso acontece com frequência até mesmo em nosso país, tanto na área rural quanto em cidades grandes,  envolvendo empresas e pessoas respeitadas pela sociedade, dá para entender que é um problema real e muito grave.

Mapa do trajeto
Mapa do trajeto

A viagem atravessa os países de Niger e Líbia para chegar até o mar mediterrâneo. Mas, por questões logísticas, as filmagens foram feitas em Senegal, no Marrocos e na Itália. Em várias cenas, vemos paisagens de tirar o fôlego, com a beleza das imagens contrastando com o sofrimento dos personagens principais e secundários, interpretados com muita competência por atores locais. O resultado final é um filme pesado, que traz críticas sociais, mas que não deixa de lado uma certa esperança de que tudo pode dar certo.

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