Título original: Perfect days
Ano: 2023
Direção: Win Wenders
Elenco: Kōji Yakusho
Os vasos sanitários do Japão aparecem frequentemente em vídeos de turistas devido ao uso de tecnologia e uma quantidade impressionante de funções. Como um símbolo da hospitalidade no país, alguns dos banheiros públicos espalhados em parques e ruas até se tornaram pontos turísticos.

Na região de Shibuya, na cidade de Tóquio, várias das estruturas ganharam uma cara nova com o projeto de artistas espalhados ao redor do mundo. Após o fim das restrições da pandemia de covid-19, o diretor alemão Win Wenders foi convidado a conhecer o projeto The Tokyo Toilet e acabou inspirado a desenvolver esse filme, gravado em apenas dezessete dias em diferentes pontos da capital.

A premissa da história é muito simples: acompanhamos o dia-a-dia de um funcionário responsável pela limpeza desses banheiros, certamente uma profissão bastante desvalorizada pela sociedade em geral. Mas um olhar atento releva que sua vida possui uma série de particularidades, fazendo com que o trivial se torne bastante complexo.

Isso acontece tanto pela simples observação de suas atividades corriqueiras quanto por encontros com colegas de trabalho, vizinhos, familiares e outros personagens que revelam parte de seu passado, seus gostos pessoais, etc. Para descobrir mais sobre ele também é necessário prestar atenção aos detalhes, expressões e olhares, visto que se trata de uma pessoa bastante calada.

Além de fazer seu trabalho com muita dedicação, ele também cuida de sua modesta casa de forma sistemática, seguindo uma rotina de cuidados pessoais e alimentação em horários bem definidos. À primeira vista, parece uma existência isolada e triste. Mas logo se revela uma vida meditativa e sutil, sob uma perspectiva positiva que pode esconder sofrimentos profundos.

Mas também mantém atividades e hobbies como o cultivar plantas e registrar do movimento dos galhos e folhas de árvores. Ele gosta de ouvir músicas antigas no toca-ficas do carro e em sua própria casa. Tem o hábito de ler livros. E gosta de observar o mundo e as pessoas ao seu redor, com atenção às atividades mais simples.

Esse exercício de olhar também é aplicado à cidade, geralmente mostrada nos filmes com seus diversos painéis iluminados e coloridos, bastante correria nas ruas movimentadas e tecnologia avançada em todos os espaços.

Aqui vemos lugares mais comuns: pequenas lojas de bairro; lavanderia de bairro; restaurante; casa de banho tradicional; crianças brincando no parque. É interessante conhecer esse lado alternativo e até aparentemente mais pobre dos japoneses, sem o luxo que costumamos ver.

É como fazer uma viagem para o lado verdadeiro da cidade, menos turístico. Isso releva como vive uma boa parte da população, seus afazeres cotidianos sem grandes acontecimentos, os costumes próprios do país e outros detalhes interessantes. Enfim, é um filme que alguns podem dizer que não tem história, até mesmo pelo seu ritmo lento. Mas possui muita complexidade nas entrelinhas, inclusive a possibilidade de refletirmos sobre nossa própria existência.