El Calafate, embora tenha menos de vinte mil habitantes, é uma das principais cidades da Patagônia Argentina. Seu enorme potencial turístico tem garantido um bom crescimento, com centenas de opções de hospedagem e um aeroporto internacional. Como trata-se de um destino de viagem com grande foco na natureza, é importante estar atento às particularidades da geografia e do clima local.

A cidade cresceu às margens do Lago Argentino, um dos maiores do país, com superfície de 1415 km2 e profundidade média de 150 m, alcançando centenas de metros nos pontos mais profundos. Ali desaguam vários glaciares, os principais atrativos da região, que descem pelas montanhas da Cordilheira dos Andes como rios congelados que avançam cerca de um metro por dia.

Entre eles, o mais famoso e visitado é o Glaciar Perito Moreno, que pode ser facilmente alcançado por uma estrada totalmente asfaltada e possui ótima estrutura de passarelas com mirantes, estacionamentos, restaurantes, banheiros e portos. Várias atividades podem ser feitas no local, incluindo a trilha sobre o gelo, uma experiência única.

Outros são acessados somente por passeio de barco, como é o caso do Glaciar Spegazzini e do Glaciar Upsala, que chamam a atenção pela grandiosidade de seus paredões e o desprendimento dos témpanos ou, como chamamos aqui, icebergs. Interessante que apenas cerca de 10% deles pode ser visto, já que a maior parte fica sob a água.

Todos esses atrativos ficam dentro do Parque Nacional Los Glaciares, responsável pela preservação dos campos de gelo, que representam a terceira maior reserva de água doce congelada do mundo, além das montanhas, florestas, estepes e lagos. É o mais extenso sistema de áreas protegidas do país, com uma área de quase 727 mil hectares.

Quem quiser entender um pouco mais sobre a formação e as características do campo de gelo pode visitar o Glaciarium, criado em 2011 com o intuito de promover o conhecimento sobre o assunto e incentivar a preservação do ambiente. O conteúdo é trabalhado com recursos sonoros e audiovisuais, além de textos com dados geográficos e históricos.

Com relação ao clima, é possível notar que existe uma grande diferença entre a cidade e os glaciares, que ficam a dezenas de quilômetros de distância. Enquanto El Calafate está com céu aberto, é possível pegar chuva durante o passeio e encontrar nuvens baixas que prejudicam a visibilidade. Por isso, é importante levar roupa adequada para diferentes situações em um mesmo dia.

As precipitações estão bem distribuídas ao longo do ano, então não tem muito como evitar. Como faz bastante frio durante todo o ano, a alta temporada é nos meses de verão. Como eu queria evitar os meses de férias, quando os destinos turísticos ficam mais cheios e caros, acabei optando por fazer a viagem em abril, já no comecinho do outono. Eu achei que valeu a pena porque ainda não estava muito frio e deu para aproveitar bem.

A cidade de El Calafate está em uma área onde predomina o estepe, com poucas chuvas ao longo do ano, plantas baixas e espinhosas. Apesar disso, o uso da irrigação permitiu criar uma cidade bem arborizada, o que ajuda a proteger as casas do vento. O terreno seco nos arredores da comunidade é bastante diferente dos bosques andinos que ficam perto das montanhas.

Na minha viagem, pude ver bem como as árvores vão ficando mais secas à medida que aumenta a altitude na subida pelas montanhas, dando uma coloração às folhas que passa pelo verde, amarelo e vermelho. Como o solo é raso e as raízes são pouco profundas, é comum ver árvores derrubadas pelos fortes ventos característicos da região. Eles também são responsáveis por baixar a sensação térmica.

Da fauna, o que mais vi por lá foram os guanacos, um animal da mesma família dos camelos, lhamas e alpacas. Eles eram caçados por povos indígenas nômades que circulavam pela região antes da chegada dos colonizadores. Também são bem característicos da área o zorrino patagónico (espécie de gambá com uma faixa branca nas costas), o huemul (um cervo andino), a águia mora, os patos-das-torrentes e os cauquenes, entre outros.

Alguns desses animais podem ser vistos na Reserva Laguna Nimez, moradia de diversas espécies de aves aquáticas e terrestres, que se alimentam e reproduzem no local, além de servir como ponto de parada para os pássaros migratórios. A trilha é toda plana e feita por conta própria, tendo 2,5 km de extensão. Gasta-se cerca de uma hora para fazer o circuito completo na lagoa.

Como fica pertinho do Hotel Kosten Aike, onde eu fiquei hospedado, achei que valeu a pena ir até lá em uma das manhãs livres que tive durante minha estadia. Também dei algumas voltas no centro, inclusive subindo em mirantes que permitiam ter uma boa vista tanto da cidade quanto dos arredores, com a cadeia de montanhas e os lagos.

Outro passeio que fiz dentro da cidade foi na Estancia 25 de Mayo, que teve grande importância para o desenvolvimento da economia local. A partir das primeiras décadas do século XX, com o objetivo principal garantir o domínio territorial e atrair os moradores ao local inóspito e de clima extremo, o governo argentino incentivou a abertura de fazendas produtoras de lã, cuja demanda aumentou substancialmente com a revolução industrial.

Isso garantiu o desenvolvimento da cidade de El Calafate como ponto de encontro dos trabalhadores das fazendas, moradores e visitantes, pois contava com um armazém geral, posto de serviços e hospedagem. Além de passar uma agradável tarde no campo, ali é possível participar de um jantar com comidas típicas e apresentação folclórica.