Título original: The zone of interest
Ano: 2024
Direção: Jonathan Glazer
Elenco: Christian Friedel e Sandra Hüller.
No embalo da maratona do Oscar, assisti a esse filme que retrata a vida profissional e familiar de um comandante do maior campo de concentração em funcionamento durante o holocausto. O evento como um todo levou à morte cerca de seis milhões de judeus, além de ciganos, homossexuais, prisioneiros soviéticos e outros grupos.

Rudolf Höss foi um dos responsáveis por testar e implementar diversos métodos de extermínio, com foco principal na população judaica. Após o fim da guerra, foi acusado e condenado de perpetrar diversos crimes contra a humanidade, incluindo o uso de câmaras de gás para acelerar a morte. Para se ter uma ideia, mais de duas mil pessoas eram assassinadas por hora no campo de concentração de Auschwitz em 1944. Sob sua supervisão, esse foi um dos maiores sistemas de aniquilação sistemática de seres humanos da história.
O filme é livremente inspirado no livro A zona de interesse, cujo nome faz referência ao local onde os judeus recém-chegados passavam por um processo de triagem que determinava se seguiriam para o trabalho forçado ou seriam executados. A história escrita por Martin Amis conta com diferentes narradores: um oficial nazista que está interessado na esposa do comandante, o responsável por definir o destino dos presos e o chefe da logística do genocídio.

No filme, esses pontos de vista individuais são descartados e acompanhamos diretamente a trajetória do casal em sua busca pela vida dos sonhos, com todo o conforto proporcionado por um bom salário. Isso se reflete na casa com muito espaço para os filhos brincarem, na mesa bem servida, na quantidade de empregados e nas roupas luxuosas.

Para tornar as cenas mais reais, as filmagens ocorreram por cerca de dois meses na cidade de Oświęcim, onde ficava a estrutura, no sul da Polônia. A cidade é mais conhecida por nós como Auschwitz, que é o nome em alemão. A gravação na área, voltada para a preservação histórica, é bastante limitada e a casa do comandante tornou-se uma propriedade privada desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Por isso, a produção optou por fazer uma réplica da moradia ali na região.

A proximidade da casa ouvir as atividades do campo de concentração e ver a fumaça que sobe dos corpos queimados. Esse mero detalhe em nada afeta o cotidiano da família. É justamente essa postura de indiferença ao sofrimento alheio que choca e causa um profundo repúdio nos espectadores. Em contrapartida, a mesma postura pode ser identificada em menor ou maior grau na atualidade, inclusive no dia-a-dia de qualquer cidade pelo mundo.

Como o filme foca na perspectiva da família, o interior do campo de concentração em Auschwitz nunca é mostrado. Embora alguns dos prédios do complexo possam ser vistos no fundo das imagens, as atrocidades que acontecem lá dentro são apenas sugeridas através de recursos sonoros, nas reuniões de planejamento das execuções e cremação dos corpos, em arcadas dentárias encontradas nas proximidades e outros elementos.

Embora a história já seja bem difundida, o filme trata dos fatos de uma maneira única. Não são mostradas cenas de guerra, com tanques nas ruas e grandes explosões. Ainda assim, as consequências do conflito aparecem em algumas cenas, como quando vemos um ex-combatente com o corpo queimado e amputado, acompanhando a apresentação de uma banda militar em uma praça.
Para se aprofundar nos detalhes dessa tragédia humanitária, uma sugestão é ir ao museu instalado no local. É recomendável fazer a visita guiada em português para entender melhor os acontecimentos. Destacam-se: a zona onde os prisioneiros eram abrigados, enforcados, mortos de fome e outras execuções; torres de vigilância e barracões ainda existentes, já que parte foi queimada pelos alemães; e o local onde ficavam as câmaras de gás e fornos crematórios, também destruídos ao fim da guerra.

Eu ainda não visitei a Polônia, então não conheço pessoalmente o museu. Dizem que é um local com uma energia muito pesada, mas que serve como local de reflexão sobre os acontecimentos e homenagem às vítimas. O destino fica a cerca de 70 quilômetros da cidade de Cracóvia, no sul do país. Enquanto a viagem não sai, a alternativa é ler o livro A zona de interesse para ter uma outra perspectiva da história.

