Quando eu estava planejando a minha viagem para Ushuaia, imaginava um povoado pitoresco numa região remota do planeta. O que encontrei foi um lugar com quase sessenta mil habitantes e sem aquele charme que eu esperava. A maioria das opções de hospedagem, com apartamentos, hotéis e albergues, se concentra no entorno da avenida principal, que tem um visual bagunçado de centro de cidade.

O bom de ficar ali é que você está perto dos restaurantes, das agências de viagem e das lojas. Mas se quiser ter um panorama melhor da área urbana, recomendo o tour panorâmico, desses feitos em um ônibus de dois andares com guia de áudio em diversos idiomas. É uma boa alternativa para ter um panorama geral da cidade de maneira confortável, já que alguns pontos ficam distantes entre si e seria preciso andar bastante.
Está incluso passar pela luxuosa Casa Beban, ao lado do Museo de la Ciudad; na Baía Golondrina, que fica perto do aeroporto; vistas panorâmicas próximas à Laguna del Diablo; as águas do Arroyo Buena Esperanza, que descem dos glaciares; e no bairro dos italianos, onde ficava o antigo aeroporto. Outra opção, que exige mais tempo e uma certa disposição, é ir caminhando mesmo. Eu andei bastante por essa área, mas para ir até os pontos mais distantes fica um pouco mais complicado, não apenas pelo cansaço, mas também pelo frio e falta de tempo.

A Avenida San Martín é a via principal do centro e a maioria dos visitantes acaba passando por lá em algum momento da viagem, muito provavelmente para ir jantar em algum restaurante ou fazer compras. Mas também estão concentrados ali vários serviços. Eu, por exemplo, precisava passar em uma loja de câmbio para trocar dólares por pesos. A única dali se chama Jupiter e tinha uma boa cotação. O dinheiro era necessário para as entradas do parque e comprar um chip de celular.

Depois passei em uma loja da Claro para garantir conexão durante minha estadia. É preciso pagar em peso e apresentar o passaporte. Outra opção é adquirir um plano de celular antes mesmo de viajar. Embora seja mais caro, ele dá a vantagem de já chegar conectado e funcionar em diversos países. No mais, paguei absolutamente tudo com um cartão de débito internacional, que tinha a vantagem de usar a cotação do dólar paralelo e não precisar andar com dinheiro vivo.

Dos lugares para comer por ali o que eu fui mais vezes foi o El Mercado, que concentra padaria, loja e restaurante e ficava exatamente ao lado da minha hospedagem, o Polo Sur Apartamentos. Também experimentei o Bodegón Fueguino, que se destaca com os pratos de cordeiro, e o El Viejo Marino, cuja especialidade é a famosa centolla, um caranguejo gigante. Apesar do clima frio, também passei na Heladería Gadget para comprar um sorvete de calafate, já que dizem que é preciso experimentar a frutinha típica para garantir um retorno à Patagônia.

Entre lojas e restaurantes, também há alguns atrativos valem a pena serem visitados. Um exemplo é a Iglesia Nuestra Señora de la Merced, cuja fachada tem cores fortes em amarelo e vermelho. A igreja foi inaugurada em 1949 para atender à demanda da crescente população. Ela estava aberta quando eu passei por lá e aproveitei para conhecer por dentro, mas é uma estrutura bem simples.

Das lojas, recomendo conhecer a Galería Temática, onde são vendidas lembrancinhas, roupas, objetos de decoração e tudo o que se pode imaginar. Mas o que mais me chamou a atenção ali foi o museu com dezenas de cenas montadas com bonecos que contam a historia fueguina, incluindo informações sobre os povos originários, a chegada dos colonizadores, a abertura do presídio, a natureza e a exploração do mar. Algumas cenas podem ser vistas gratuitamente no jardim do fundo da loja.

No fim da avenida fica um complexo de museus que inclui o Museo Marítimo, com exposição sobre as embarcações, naufrágios e ecossistemas; o Museo del Presidio, com corredores estreitos, celas, móveis, pinturas, cartas, correntes e outros itens ligados aos condenados; o Museo Antártico, com foco nas primeiras expedições polares; e o Museo de Arte Marino, que exibe obras de artistas e artesãos locais. Na Avenida Maipú está o Museo del Fin del Mundo, do qual também faz parte a Antigua Casa de Gobierno, para conhecer mais da história da cidade e da região.

Achei a caminhada nessa via mais agradável, já que tem vistas do canal. Na Plaza Cívica fica o Centro de Información Turistica, onde dá para tirar dúvidas, pegar mapa da região, folhetos dos atrativos e usar carimbos temáticos em cartões postais ou no próprio passaporte. Ele também funciona como um ponto de apoio para os visitantes que queiram descansar as pernas, acessar uma internet sem fio gratuitamente, usar os sanitários ou até mesmo fugir um pouquinho do frio.

A maioria dos viajantes passa por ali indo em direção ao Puerto Turístico. Nesse porto estão concentrados os quiosques de diversas agências que fazem o passeio de barco com pinguinera, que dura boa parte do dia e vai até onde fica concentrada uma grande comunidade de pinguins. Há ainda um passeio de barco mais rápido, que se concentra no arquipélago da Isla Bridges, e outro para quem quer fazer uma trilha mais extensa pelo local, o passeio de iate.

Ali perto do porto também fica o Paseo de los Artesaneos. A primeira vez que passei por lá eu achei que não estava aberto, mas é que a porta fica sempre encostada para manter uma temperatura interna agradável. Basicamente, é um grande corredor com diversas lojinhas que vendem roupas, acessórios, objetos de decoração e outras coisas típicas da região. Eu não comprei nada, mas vale a pena dar uma passada, nem que seja apenas para conhecer.

Eu me programei para ter alguns períodos de folga entre os passeios e aproveitei para dar uma caminhada no calçadão, que tem cerca de dois quilômetros de uma ponta à outra. Um dos destaques é a vista das montanhas na porção final da Cordilheira dos Andes. A mais alta é o Monte Olívia, que chega a 1.326 metros e possui dois glaciares pequenos. Já o Cerro Cinco Hermanos, bem ao lado, chama a atenção por possuir cinco picos bem definidos. Nesse último, é possível fazer uma trilha para mirantes e lagoas.

Também há algumas construções históricas, como a Antiqua Capilla. A igreja foi consagrada em 1898 e, por muitos anos, recebeu os eventos mais importantes da cidade. Após a inauguração da nova paróquia, mais ampla e cômoda, o antigo templo caiu em desuso e passou por um período de abandono. Somente em 1997 a construção passou por uma reforma, sendo reinaugurada no ano seguinte, coincidindo com seus cem anos de história.

Pertinho dessa capela fica o Saint Cristopher, embarcação usada durante a Segunda Guerra Mundial pelos ingleses, batizado como HMS Justice. Após o conflito, foi comprada por um argentino, mas parou de navegar em 1954, após a falência da empresa. Encalhada na costa, tornou-se mais um cartão postal da cidade. O litoral também conta com diversas praças e, perto da Bahía Encerrada fica o letreiro da cidade com iluminação noturna.

Também vale a pena sair dessa área central. Inclusive, muitos viajantes se hospedam mais para cima dos morros, aproveitando a estrutura de hotéis como o Las Hayas Ushuaia Resort, que possui spa, piscina coberta, sauna, academia, quadra de esportes e biblioteca. Além disso, dali dá para fazer uma trilha por conta própria para ver o Glaciar Martial, com neve o ano quase todo e principal fonte de água potável para a cidade. No inverno, funciona ali estação de esqui, embora tenha estrutura simples quando comparado ao Cerro Castor.

Mais bonita e grandiosa é trilha pelo glaciar Vinciguerra, um passeio que dura o dia todo e exige bom preparo físico. O objetivo ali é chegar até a Laguna de los Témpanos. Para quem gosta desse tipo de passeio, também é possível fazer a trilha na Laguna Esmeralda ou a mais tranquila trilha pelo Parque Nacional Terra do Fogo. Se andar não for seu negócio, também é possível conhecer esse último atrativo com a excursão ao Parque Nacional Terra do Fogo + Trem do Fim do Mundo ou fazer a excursão de 4×4 aos lagos Escondido e Fagnano.

Se a ideia é economizar no transporte e ter mais liberdade de explorar a área, a melhor opção é alugar um carro. Isso permite criar sua programação e andar no seu próprio ritmo. Um ponto pouco incluído pelas agências é a Playa Larga, uma área de conservação ambiental com mirantes para a cidade e o canal. Para ajudar no seu planejamento, disponibilizo abaixo o mapa interativo com marcações de todos os pontos que visitei ou citei nas minhas postagens.
Eu fiz o passeio no comecinho do outono e fiquei em Ushuaia por quatro dias completos, o suficiente para conhecer alguns dos principais pontos turísticos como o Parque Nacional Tierra del Fuego, as ilhas no Canal Beagle e os Lagos Escondido e Fagnano. A minha ideia, se tiver oportunidade de voltar à região, é focar nas na prática de esportes de inverno.
