Detalhe da capa do livro As aventuras do bom soldado Švejk

As aventuras do bom soldado Švejk ★★★★☆

Título original: Osudy dobrého vojáka Švejka za světové války
Ano: 1920-1922
Autor: Jaroslav Hašek

Jaroslav Hašek, nasceu em Praga em 30 de abril de 1883, quando a República Tcheca fazia parte do Império Austro-Húngaro e ainda se chamava Boêmia. Era de uma família humilde, perdeu o pai (morto em consequência do abuso de bebidas alcoólicas) quando tinha apenas 13 anos e precisou abandonar os estudos para trabalhar em uma farmácia. Em 1902, após voltar a estudar, Hašek se formou em comércio e conseguiu um emprego no banco, mas foi rapidamente demitido devido aos problemas decorrentes do alcoolismo. Nesse período, já dedicava parte do seu tempo escrevendo para periódicos de esquerda e, em 1907, tornou-se redator-chefe do jornal anarquista Komuna. Em 1911, fundou o Partido do Progresso Moderado Dentro dos Limites da Lei, pelo qual se candidatou, e casou-se no mesmo ano com a também escritora Jarmila Mayerová.

Jaroslav Hašek
Jaroslav Hašek

Em 1915, Hašek alistou-se no Exército Austro-Húngaro e foi a combate na Primeira Guerra Mundial. Eventualmente, foi preso pelos inimigos, passou para o lado dos russos e participou do movimento nacionalista contra o domínio austro-húngaro conhecido como Legião Tcheca. Em 1920, morando novamente em Praga, militava como comunista e nacionalista e publicava, por conta própria, os textos que formam esse livro. O autor faleceu aos 39 anos em Lipnice nad Sázavou, uma aldeia tcheca, em 3 de janeiro de 1923, sem terminar sua obra.

Saber a história do autor é importante para entender a dimensão desse livro pois, em grande parte, os fatos narrados fazem referência a experiências próprias: assim como no texto, Jaroslav Hašek foi comerciante de cães, passou diferentes períodos preso por suas atividades anarquistas, participou da Primeira Guerra Mundial, perambulou pelo país sem dinheiro, inventou a existência de diferentes espécimes da fauna enquanto trabalhava na revista Mundo Animal, foi internado em um hospício e tinha muitos problemas com as bebidas.

Cena do filme Dobrý voják Švejk (1956)
Cena do filme Dobrý voják Švejk (1956)

Considerado inadequado na época de sua escrita, As aventuras do bom soldado Švejk era impresso por conta própria e vendido em capítulos pelos botecos dos bairros populares de Praga. Em 1926, depois da morte do autor, o livro foi traduzido para o alemão e levado às telas dos cinemas pelo diretor Carl Lamarc, ganhando notoriedade. Em 1936, quando os nazistas ocuparam a Tchecoslováquia, o romance foi queimado nas fogueiras. Posteriormente, a chegada ao poder dos comunistas trouxe nova vida à obra, considerada popular e anti-imperialista. Em 1956, o livro ganhou nova versão para o cinema na Tchecoslováquia (atuais República Tcheca e Eslováquia) pelo diretor Karel Steklý. Aparentemente, também existe uma animação tcheca, de 1955, e um filme alemão, de 1960, baseados na obra.

As aventuras do bom soldado Švejk

O texto de Hašek é extremamente crítico e irônico. Dividido em quatro partes (eram previstos seis volumes), acompanhamos a trajetória do atrapalhado soldado que, assumidamente um grande idiota, inspira compaixão e/ou ódio de todas as pessoas que encontra em seu caminho rumo à guerra. A leitura é fácil e prazerosa – li a edição traduzida para o português por Luís Carlos Cabral, de onde tirei várias das informações apresentadas acima. A minha única dificuldade foi de entender a localização das vilas, cidades e outros cenários retratados, pelo desconhecimento mesmo da região.

Trecho do livro
Trecho do livro

O humor é empregado com primazia pelo autor para criticar a sociedade com situações e diálogos fantasiosos, mas que não perdem sua força como registro histórico da época. Literalmente nada escapa à sua percepção cínica e inteligente, retratada por um personagem que de idiota não tem nada. Perseguições políticas, imoralidade social, abuso de poder, traições, paranoias, corrupção nos mais diversos níveis, a situação da saúde, as dificuldades para conseguir alimentos, a irracionalidade da guerra e muitos outros temas são retratados em situações que chocam justamente pela naturalidade em que são apresentadas. Achei a leitura da primeira parte do livro mais prazerosa, pela sua simplicidade e leveza – os textos ficam mais arrastados, os diálogos longos e algumas situações repetitivas com o passar dos capítulos, mas ainda assim é um ótimo livro. Aliás, vou deixar que o próprio autor o apresente, como consta no prefácio.

As aventuras do bom soldado Švejk

Prefácio

Grandes épocas requerem grandes homens. Existem heróis desconhecidos e modestos, que não têm a fama e a história de um Napoleão. No entanto, uma análise de seu caráter ofuscaria até mesmo as façanhas de Alexandre Magno.

Hoje mesmo seria possível encontrar nas ruas de Praga um homem modesto, sem consciência da sua importância para a história dos grandes tempos modernos. Segue seu caminho com humildade, não incomoda ninguém nem é assediado por jornalistas ávidos por uma entrevista. Se lhe perguntassem como se chama, responderia com simplicidade e sobriedade: “Eu sou Švejk.”

E este homem silencioso, discreto, vestido com displicência, é, na verdade, aquele velho bom soldado Švejk, generoso e heroico, cujo nome, na época do império austríaco, era mencionado por todos os cidadãos do reino tcheco. Nem a República fará sua glória empalidecer.

Gosto muito do bom soldado Švejk. E estou convencido de que, quando narrar as aventuras que viveu ao longo da Guerra Mundial, todos os leitores sentirão a mesma simpatia por este herói humilde e desconhecido. Não, ele não incendiou o tempo da deusa em Éfeso como fez o idiota do Eróstrato só para ter seu nome publicado nos jornais e ser citado nos livros de história.

E isso é o que basta.

O Autor

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