Diários de Motocicleta

Diários de Motocicleta ★★★★☆

Título Original: The Motorcycle Diaries
Ano: 2004
Direção: Walter Salles
Elenco:  Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna e Mía Maestro.

“Este não é um relato de ações impressionantes. É um pedaço de duas vidas tomadas em um momento em que cursaram, juntas, um determinado trecho, com identidade de aspirações e conjunção de sonhos. Foi nossa visão muito estreita, muito parcial, muito apressada? Foram nossas conclusões muito rígidas? Talvez. Mas este vagar sem rumo pela nossa imensa América me mudou mais do que pensei. Eu já não sou eu. Pelo menos, não sou o meu eu interior.”

Che Guevara

Baseado no livro Notas de Viaje, de Ernesto Che Guevara e com algumas referências a Con el Che por Latinoamérica, de Alberto Granado, o filme Diários de Motocicleta nos apresenta a um homem ainda distante de se tornar o símbolo de uma revolução. Ernesto Guerava de la Serna era, em 1952, um jovem de classe média prestes a se formar em medicina, que decidiu partir com o amigo Alberto Granado de moto em uma aventura pelo continente em que moravam, mas pouco conheciam. Embora existisse um objetivo de chegar e trabalhar em uma comunidade para tratamento de leprosos no Peru, a ideia era viajar, se divertir, encontrar com a namorada de Ernesto, conhecer outras mulheres.

Trata-se de um road movie com foco no amadurecimento dos personagens, principalmente Ernesto Guevara, então com 23 anos. À medida que avançam em sua jornada, eles passam por algumas dificuldades, mas é a vida das outras pessoas que mais influenciam na formação de um olhar crítico da história e das diferenças sociais que marcam os países da América Latina, principalmente o Chile e o Peru. Durante a passagem pelo Deserto do Atacama, por exemplo, os amigos se sentem desconcertados ao não conseguir explicar a um casal o propósito de sua viagem. Eles viajam por viajar, enquanto os outros fogem da perseguição política sofrida pelos comunistas e procuram emprego em situações extremas nas minas da região.

Essas pessoas são mostradas de maneira bem naturalista e, em muitas cenas, são usados figurantes das comunidades locais, o que garante um resultado muito verdadeiro e funcionam, ao mesmo tempo, como um cartão postal das paisagens desses países e um retrato das condições em que viviam seus povos. Aliás, acredito que uma viagem atual não traria resultados muito diferentes daquela realizada nos anos 1950 – ainda há muita pobreza, injustiças sociais, exploração do trabalho e marginalização das comunidades indígenas.

A fotografia, a direção, o roteiro e as atuações são muito competentes. É verdade que ele se apresenta de modo episódico, o que é inevitável em uma história real que busca retratar vários meses de viagem e lugares distintos. Além disso, como esclarece o trecho que abre esse texto, não se trata de uma jornada com muitos acontecimentos e ações impressionantes, o que pode deixar o filme arrastado para algumas pessoas. Eu, particularmente, acho o resultado muito tocante.

Uma passagem curiosa sobre a música Al Otro Lado del Rio, composta e interpretada por Jorge Drexler para o filme, foi a decisão da organização do Oscar de colocar Antonio Banderas e o guitarrista Santana para cantar e tocar a canção durante a premiação. Um desrespeito com o autor, que sequer foi convidado a apresentar a própria música. Bom, ele acabou ganhando o Oscar e, em seu agradecimento, cantou um trecho da música “da maneira correta” e não no que a transformaram.

A música aparece nos créditos finais e faz referência a uma das cenas do filme que me incomodou por criar uma tensão desnecessária, mas me agradou pela forma sutil que mostra que a trajetória do personagem havia chegado a um ponto importante. Ao atravessar o rio que separa os médicos das pessoas doentes, Ernesto Guevara se posiciona, figurativa e fisicamente, ao lado do povo, dos oprimidos.

Talvez o filme seja até tendencioso nesse sentido, se preocupando em mostrar o personagem como alguém que devemos admirar. Mas, no geral, isso é feito com tanta sensibilidade que não há como não apreciar o trabalho das pessoas envolvidas nesse projeto. Se fosse um filme do Steven Spielberg de outro diretor, pode ter certeza que haveria muito choro, cenas com diálogos carregados de emoção e música melodramática acompanhando cenas em câmera lenta. Não é o caso aqui.

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